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sexta-feira, outubro 03, 2003

FIM
A experiência do RAE chegou ao fim. Agradece-se vivamente aos que foram passando, aos que foram comentando ou contribuindo com uma ideia ou uma correcção.

O Blogar não deixa saudades ao autor do RAE.


terça-feira, setembro 30, 2003

loucura
Escutei recentemente o registo em CD da peça de Heiner Goebells, O homem no elevador (Der Mann im Fahrstuhl), com texto de Heiner Müller. Nesta peça, como noutros textos de Müller, impressionou-me a maneira como reflecte sobre o poder e, acima de tudo, sobre o seu fracasso irremediável. É que todo o poder contém uma promessa histórica que não pode cumprir. É menos um sentimento trágico, de uma desencantada ironia que se alimenta, ainda, de tal promessa. Em si mesma é vazia, o que tem a ver com a natureza do poder: a sua capacidade de realizar seja o que for, desde que possível, mais o fascínio por realizar o impossível, o absoluto. Toda a obra de Müller tem a ver com a maneira como a possibilidade realizar a «história» se perdeu num desvão da história, não se sabendo se ainda pode ser recuperada, presa como está dos escaninhos da memória que a alimentam, num certo desespero. O herói da peça, ao serviço do Poder, enquanto este ainda tem sentido, aceita finalmente o acaso, entregando-se à história que já não é certo que possa haver, mas que o Numero um já não controla, e se calhar nunca controlou. Para isso tem de apagar cuidadosamente os seus traços de herói-burocrata, de servidor de algo está acima dele. Despe-se, finalmente, depois de ter escondido a gravata e tirado o casaco. Nesse ponto encontra-se com o seu outro: outra vez ele, de face branca, num luto de uma história que morreu, a soviética, e que parece arrastar na sua morte toda a história que há. Todo o desespero de Müller arranca desta ideia: se morto para a história, então morto em vida, caindo-se numa finitude sem remissão, absurda. Cada um tratando da sua vidinha que se gasta para nada. Perdidas todas as ilusões de ser proprietário da história, abandonado o uniforme que o fazia pertencer a uma dado movimento, fica o herói reduzido a um simples homem,. O homem do elevador abandona assim o Senhor, o Chefe, o Número Um, e a história livra-se de ambos, do Mestre e do Escravo, mas sem com isso resolver o enigma que a impulsiona. Um pouco a mesma lição que a de Beckett em Engame. Permanece, todavia. uma réstia de esperança, uma certa compaixão por aqueles que ainda têm história, por parte daqueles que a falharam? África, China, Brasil. Como Müller está a anos-luz das esquálidas teses sobre o «fim da história». Chegou ao fim tão-somente uma imagem da história. É certo que, hoje, parece estar perdida num arquivo qualquer junto de outros dados, tão inumeráveis que não a reconheceríamos mesmo que a encontrássemos. Só que o arquivo, para Müller, engloba a totalidade do mundo. Porquê? Porque tudo o que poderia ter sido e não foi, acabou por ficar em suspenso, falhando a ocasião, e essa falha marca cada uma das coisas, dos corpos, todos os pormenores por ínfimos que sejam. O restou do fogo da história foram as suas cinzas: Estado, dinheiro, polícia, mas também a técnica, que roda em seco quando a história se encaracola sobre si mesma. É esta a nossa física pura e dura. Mas a certo momento, na peça, o relógio do burocrata parece enlouquecido, incapaz de medir o tempo do mundo e o tempo da história, fazendo explodir a própria física. Dessa explosão a poesia é culpada, reconhece Müller. A poesia é uma culpada feliz: a sua maneira de enlouquecer o mundo pode salvá-lo de si mesmo, da sua «apagada e vil tristeza».

segunda-feira, setembro 29, 2003

blgnd...
Este é um blog sem flores.
Abra-se uma excepção para uma «flor» enviada pelo Luís Gouveia Monteiro, estranho amigo este, que vive ao arrepio dos tempos... hors d'anciens calculs (Mallarmé).

vidros
Nas revoluções e nos terramotos o primeiro a partir são os vidros.

vitrines
Aguçam o desejo ao deixarem passar os olhos, e não as mãos.

branco
Seremos livres quando as cores o forem também...

vítimas
Em Esparta atacava-se os fracos para se tornarem fortes, agora são atacados para proteger os poderosos...

mimosas
Ainda sinto nas mãos o toque das mimosas. Amarelas e pegajosas...

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