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domingo, setembro 28, 2003

imperatriz
A amizade é a imperatriz, temporariamente no exílio.

energia
Durante toda uma eternidade a energia terá sido basicamente animal, e a carne era o bem mais precioso, morta ou viva. Não custa adivinhar que em torno do totem da tribo se criava um «corpo» colectivo que moderava os usos da carne, a «nossa» contra a dos outros: de animais ou dos reunidos em torno de outros totens. A criação de tais corpos colectivos permitia usar na máxima potência a energia carnal, os guerreiros espalhando-se pela floresta como um corpo múltiplo que cercava a presa. Era menos importante o autor do golpe que a morte da presa. Terá sido deste magma carnal que se foi originando a ideia de um corpo próprio, a que os modernos chamam indivíduo. Este corpo ainda era uma forma derivada do corpo colectivo, mas agora a protecção vinha, não da reunião dos «corpos», mas do véu jurídico que garante a individuação e, acima de tudo, o direito a dispor de si. Este processo alguma afinidade teve com o surgimento das máquinas que dispensaram a energia animal, o que não deve ter deixado de ser intensamente perturbador. Basta ver como o suicídio ou a eutanásia são mal tolerados, para se perceber que outros poderes estavam presentes. A perturbação parece dever-se ao facto de que a carne livre se torna incontrolável e inútil. Chamou-se a atenção para o facto de que a disciplina da fábrica ou do exército ou da escola eram uma forma de adestrar os corpos para produzirem mais trabalho do que aquele que cada um pode fornecer. Não sendo esta ideia errada, não esgota as possibilidades de fazer «corpo» e de mobilizá-lo numa certa direcção, que caracteriza todo o poder. O trabalho cria um corpo mecânico dentro da fábrica, potenciando as forças disponíveis, mas a mobilização geral dos corpos liga-se fundamentalmente à guerra. O Triunfo da Vontade de Leni Riefenstahl mostra-o à saciedade. Poderia mesmo discutir-se se o filme não fará parte dos mecanismos de acumulação de energia carnal. As fileiras matemáticas e geométricas formadas por corpos que marcham ao compasso de uma música obsessiva e sincopada, cruzando-se numa harmonia perfeita, apenas perturbada por um olhar de entranheza de um homem qualquer, ou alguém que à janela está petrificado, mostram bem a maneira como no século XX, por entre os corpos dos indivíduos, pulsava um hiper-corpo político, altamente violento. Agora que as máquinas começam a dispensar os homens da guerra, como antes os dispensaram do trabalho, parece que tudo isso desapareceu, por desnecessário. Fim dos uniformes, vitória da moda? Não, apenas outra maneira de fazer corpo, um pouco mais enigmática apenas. Não resisto a aproximar do filme da Rifenstahl um filme americano, Lullaby of Hollywood, de Busby Berkeley. A mesma vontade coreográfica, a perfeição de gestos que mimam flores a abrir ou jactos de água a irromper, feito por corpos que se movem em uníssono, criando um corpo colectivo que já não se define pela força, mas pela beleza». Estará em causa uma outra guerra, agora de diversão? Nada disso, à medida que as máquinas dispensam os corpos, apenas necessários como suporte do desejo de consumir, a antiga energia fica solta e tem de ser reutilizada. Não se trata de fazer corpo para concentrar a energia, mas para dissipá-la de maneira a que tudo possa continuar como sempre... sem nunca se chegar a usá-la.

sábado, setembro 27, 2003

fraqueza
As tatuagens mostram que a pele está cada vez mais indefesa.

culpa
Li algures que alguém se deixava punir estando inocente, para restabelecer a harmonia por culpas que tinham ficado sem castigo. Talvez fosse esse mesmo sentimento que animava Cristo que se deixa crucificar para remissão dos pecados do mundo, ou seja, de crimes de que não tinha culpa. Como se a quantidade de culpa fosse infixável, tendo de ser reparada em geral, por todos. Este tipo de reparação pareceu-me bem mais interessante que o praticado pelo direito penal moderno que liga, por cadeia forjada elo a elo, crime e castigo, crime e criminoso. É a totalidade da existência que está em estado de culpa, como pretendem as teologias da queda, do pecado original? Isso explicaria que já existissem culpados antes de haver crime, como era o caso dos judeus, das bruxas, dos estrangeiros ou dos homossexuais. A vantagem em se atribuir a culpa a um culpado é acabar-se assim com os culpados «profissionais». Mas também é verdade que existe uma culpabilidade que excede todos os crimes, e as leis que os consignam com as suas penas associadas. Perante as crianças abusadas por quem os deveria proteger, ou os pobres que se sentem culpados por o serem, ou a injustiça que faz explodir o peito, como não seríamos todos culpados? Mas se todos são culpados é o mesmo que só haver inocentes. Trata-se de uma culpa indefinível que se extingue em cada acto justo, como cada crime activa uma culpa bem definida. Essa guerra de guerrilha em torno da culpa, o próprio sonho de acabar de vez com ela, justifica a referida incoincidência entre culpa e castigo, que nada nem ninguém conseguem voltar a ligar. Kafka sabia algo dessa incoincidência. No Processo leva à máxima irrisão a tentativa do tribunal atribuir um crime a um culpado. Não se trata de «desculpabilizar» a culpa, caindo numa má infinidade, ao alargar o acto à «família», à «sociedade», etc. Kafka permite dar conta da dificuldade de atribuir uma culpa, mas também a dificuldade uma culpa geral. Para além do pecado original e dos «crimes», esses enredamentos da culpa, existe o espaço onde K., de maneira hilariante, se confronta com o fim da culpa. Nesse espaço aberto pela literatura podemos viver todos, inocentes.

sexta-feira, setembro 26, 2003

mundo
O berlinde é um dado que não pára por ter faces a mais.

dualidades
A dinâmica ocidental é suportada pela ideia de que o que existe é uma ponte para outra existência, hierarquicamente superior. O existente está em falha porque ainda não atingiu o seu destino, só o futuro tem densidade, fragilizado apenas por ainda não se ter realizado. Servia esta visão para corrigir a existência, pontualmente e na totalidade, alimentado um movimento que, durante muito tempo, se baseou no trabalho sobre os corpos e as coisas. O sempre denunciado «dualismo» ocidental mais não era do que a instanciação lógica desta divisão do presente contra si próprio. É certo que perdeu muita da sua força, sem ser errada, pois na história não existe o erro. Wahrol anunciara nos anos 60 que «não há futuro», e no eterno presente o movimento parece não necessitar da tensão das dualidades, sentindo-se todos à vontade na «multiplicidade», o que equivale a dizer que já podemos dispensar a dialéctica da totalidade, cada um a tratar do seu pequeno jardim. À medida que a existência foi sendo electrificada desapareceram, aparentemente, as oposições clássica, para alegria dos pós-modernistas. Mas só aparentemente, pois o que se verifica é o encurtamento das distâncias provocado pela aceleração eléctrica. Como sucede no telefone em que os que falam estão simultaneamente presentes e ausentes. A electricidade não aboliu a distinção teológica de presente e ausente, apenas os ligou de forma tão rápida que se tornam irreconhecíveis. De facto está-se presente, trazidos os interlocutores pela velocidade da luz, e as máquinas que a trabalham, e está-se ausente, pois mal se interrompe o fluxo eléctrico tudo fica deslassado e separado. Houve, portanto, uma aceleração da metafísica por meios técnicos que mimam bastante bem a «mística» antiga, sem deixarem de a abalar. Os poetas radicais do século XIX cedo se confrontaram com esta questão. É o caso de Hölderlin que dá conta de uma tensão do poético e do não-poético, que constituem uma mistura que «não deve ser excessiva». Não se confunda tal mistura com a hibridação. De acordo com o poeta do Hiperião, trata-se de percorrer uma série de gradações do real: «Ascender e descender essas gradações é a vocação e a delícia do poeta». Nada escapa ao varrimento poético do não-poético, do «real» pela poesia. Toda a medida ou quantidade é absorvida pela dinâmica poética. «Um pouco mais de azul e seria brasa» diz Mário de Sá Carneiro. Um pouco menos e seria um «suicida»? Quantidades que se acrescentam e diminuem, elevações e quedas bruscas, como as apresentadas por Beckett nesses estranho texto intitulado «Imagination dead imagine», telescopagens onde se aumenta e diminui desmesuradamente, como no Gulliver. Tudo formas de percorrer as separações e as divisões, sem as anular, mas também sem ficar preso da malha que elas tecem e da electricidade que as vivifica. Um pouco como sucede com o body electric cantado por Whitman, mas em que a fusão entre corpo e electricidade só é pensável poeticamente. Ou a poesia conduz a electricidade, ou esta conduz a poesia.

quinta-feira, setembro 25, 2003

sonhos
Os carros sonham com aviões, e os aviões sonham com anjos...

Acmé

Os gregos descreviam como acmé o ponto mais alto da vida de um homem, aquele momento em que esta se dividia em duas, como se fosse o pico de uma montanha. Era este ponto que fazia da vida algo mais do que Zoon ou Bios .... A vida só é «vida» quando iluminada pelo resplendor da beleza. É no acmé que a beleza emerge de repente, pelo que devemos entendê-lo com a concentração de toda a vida num ponto. Uma vida é bela quando esse ponto se desdobra numa imagem que a dá a ver como tal. Era a maneira como se vivia a morte inevitável que, para os gregos, permitia distinguir uma vida bela de uma indigna. Que era sempre uma morte indigna. Tudo isto depende de uma certa visão da heroicidade. A bela morte do herói, enquanto acto derradeiro, espalhava-se por todos os actos, fazendo brilhar de outro modo os actos anteriores. O acto heróico que salvava a vida passada do herói. O carácter extremo desta prova serve de leitura à própria vida, que exige sempre heroicidade, mesmo sem ir à guerra. É ela que determina também todos os actos que estão para vir, e não apenas aqueles que já são do passado. A imagem dos heróis, ao cravar-se na alma de cada um, instava a fazer de cada acto um ponto de viragem. Implicava isto que a vida fosse determinada pela morte? Sendo a morte bela a do herói, ela é sempre anterior à vida, libertando-se assim do medo que a corrói. Vive-se eternamente, gozando o dia, por se já ter morrido, heroicamente, num momento qualquer... Eis o acmé que o próprio sentiu, e um dia será visível.

quarta-feira, setembro 24, 2003

disparos
A invenção da pílula está para as mulheres como a invenção da arma de fogo está para o homem. Livraram-se ambos da ligação fixa, elas ao corpo do filho, os segundos ao corpo do inimigo.

desespero
Nos engarrafamentos os carros roncam como feras enjauladas.

talvez
Foi o desprezo pelo «talvez» que me afastou, quase inconscientemente, das teorias do «entre», do nem dentro nem fora, dos limiares e soleiras de todo o tipo...

terça-feira, setembro 23, 2003

monitor
Sempre que estou distraído o monitor olha levemente desconfiado.

ponte
Em cada momento está tudo presente. A primeira sensação que originou uma imagem, a primeira narrativa entrecortada, de uma linguagem que se formava, o que se seguiu a tudo isto, e que foi conservado num esforço para que não desaparecesse. Os monumentos são o esforço dos grandes, as memórias são-no dos pequenos. Querer permanecer, eis a afecção comum, é nela que se funda a própria ideia do comum. Depois da divisão inicial que propulsa a existência para se procurar noutras formas, ou para se sublimar em formas ideias, ocorrem novas divisões, agora a de um permanecer frágil, como o da memória, ou absoluto como os «monumentos», que querem eternidade. A ideia de que algo está em «germe» no seio do real corresponde à idealização de um destino. Envolto nos desejos da perfeição, do destino ideal, está algo muito mais simples, que o poeta catalão Joan Brossa, descreve como «ponte». Trata-se do caminho por onde passam os caminhos da memória e da criação do ideal, da sua invenção e da sua inscrição sobre a superfície do mundo. A própria poesia para continuar tem de fazer da poesia já feita a ponte para outra poesia: «Este é o caminho/ Que serve para passar/ Do poema anterior ao seguinte» (Pont/ Aquest és el camí/ Que serveix per a passar/ Del poema anterior al següent.»). Também na vida, aquilo que está aí, que já estava antes de nascermos, como na cidade onde entrámos pela primeira vez e que se agitava sem esperar por nós, é a ponte para continuarmos, seguindo outras caminhos dentro do caminho que nos trouxe até aqui. Em tudo está ao mesmo tempo o rio, as margens e a ponte, uma vez unindo, outra movendo-se, outra esgotando-se em fazer passar, tudo desembocando no poema seguinte, ou na forma do que está a vir.

segunda-feira, setembro 22, 2003

cervical
Entre servo e cervo vai quase um dicionário...

substituição

Procura-se para não encontrar, e acha-se o que não se precisa...

poder
Como no cavalo de Tróia, o poder está sempre oculto.. enquanto espera.

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