<$BlogRSDUrl$>

domingo, setembro 21, 2003

literatura
Na pré-história todos os peixe eram solúveis, mas só na literatura existe um «peixe solúvel».

sábado, setembro 20, 2003

escravos
As máquinas foram feitas à semelhança dos escravos antigos. A ser assim, ainda falta libertá-las.

cabeça
Em África vi no teodolito mulheres de cabeça para baixo e não me espantei. A minha também andava aos baldões pelo chão.

moldura
As belas iluminuras dos códices medievais que festejavam as letras e os começos, as cornijas das catedrais góticas, os altares dourados do barroco, tinham todos em comum a glorificação da «moldura». Ela não era um simples ornamento, mas o sinal de algo bem mais fundamental. Não por acaso essas molduras tinham todas uma afinidade com a curva. Ogivas, meias elipses, semicírculo a encimar rectângulos, todas apontavam para o círculo perfeito que era a imagem medieval de Deus. O mundo era emoldurado em Deus e este era a moldura do mundo. Apesar das tentativas teológicas para mostrar que o que se passava dentro da moldura era «livre», na prática a moldura da teologia política delimitava tudo aquilo que podia, ou não, aparecer, as imagens aceitáveis ou a evitar. Era menos um ecrã do que uma passagem entre o visível e o invisível. Daí a intensa dramatização das imagens, e a exclusão fora da moldura de tudo aquilo que a perturbava: o demoníaco, os fantasmas, as bruxarias, etc. Em poucos século sentiu-se que essa moldura era asfixiante, como que impedindo outras possibilidades, e acabou por entrar em crise. Pesou nesta crise o «ateísmo» dos Philosophes, e o seu gosto cartesiano com as quadrículas e as grelhas. O círculo é trocado pelo «quadrado», por uma infinidade de quadros. É uma questão antes de mais técnica. O domínio do quadrado torna-se nítido em meados do século XIX, com o surgimento da fotografia e, depois, do cinema. O mundo é, agora, cortado em quadrados, recortado pelo «frame» fotográfico, ao mesmo tempo excedendo o quadro, e eliminado por não caber nele. O cinema será mais plástico, e o vídeo mais ainda. A pintura de um Manet, por exemplo, procura obviar os efeitos de «eliminação» do real, recorrendo aos procedimentos fotográficos, mas para ampliar o real. Isso é bem nítido no quadro Bar aux Folies -Bergères, de 1882, onde os corpos e os objectos são «cortados» pelo frame, como já sucedia nos espelhos que o quadro volta a cortar. A quadro é uma «janela» aberta no real pela arte, dando sinal daquilo que a excede e que apenas a arte pode dar a ver. Não basta, portanto, dizer que a Grande Moldura desaparece, deixando todas as coisas, os corpos e as imagens, num estado livre, possibilitando ligações novas que não cabiam no «quadro» medieval. Havendo nisso um grão de verdade, fica demasiado curto. Tudo indica que, em lugar de desaparecer, a «moldura» tendeu a desmultiplicar-se numa infinidade pequenas «molduras», que servem de «janelas» e «interfaces», já não entre o visível e o invisível, mas entre a vida e o tipo, entre o arquivo e o agir. Trata-se de «frames» produzidos tecnicamente, que se fundem com as imagens, os corpos e os objectos, na medida apenas em que estes «caibam» dentro dessa estrutura. O caso da máquina fotográfica é esclarecedor. À medida que estas se multiplicaram, cada um passou a viajar com um pequeno produtor de «frames», que geometriza a existência, tornando-a quadrada ou rectangular, à semelhança dos objectos produzidos pela máquina. A grande moldura não desapareceu, antes se disseminou quase viralmente, num infinidade de pequenos frames que continuam a dominar a vida, agora formatada pela técnica e não já pelo teológico. O momento terminal deste processo seria aquele quem que as molduras desaparecessem totalmente, para libertar a vida... da própria vida, e das suas fragilidades. As molduras são mais potente quanto mais invisíveis. Trata-se de intervir no movimento que vai da invenção da moldura ao seu desaparecimento. Como mostra o pintor Mark Tansey, num quadro intitulado Discarding frame, deitar fora a moldura apenas a multiplica, aprisonando no seu interior os que têm a ilusão de se terem livrado dela.

imagens
Diz-se que vivemos na época da imagem, que estamos submergidos por uma infinidade de imagens que nos circundam caoticamente. Nada mais falso. A época da imagem foi aquela, teológica, onde a imagem de Deus organizava todas as outras, mas também todas as coisas, e que, secretamente, nos dizia que o «existente» na sua insana profusão era sempre o mesmo, uma pálida imagem de algo mais essencial, a salvação, para que tudo remetia, e de que dava testemunho. O nihilismo moderno fará de «Deus» uma imagem entre outras, que surgiam na exacta medida em que a primeira ia perdendo força. A actual profusão das «imagens» é o efeito da explosão dessa imagem «absoluta».

sérios
Lembro-me de ter contado a um pequenito a fábula do «Pedro e do lobo». Ficou indignado pelo Pedro morrer apesar de ter dito a verdade, e por a verdade de nada servir, por si mesma, contra as duas mentiras anteriores. Era claro que ele não conseguia perceber que tudo estivesse encadeado, que não se pudesse começar sempre de novo, como se nada tivesse acontecido antes. Menos conseguia perceber que da cadeia de mentiras e verdades pudesse resultar a morte. Como adoro esse pequeno mudei um pouco as coisas. E, assim, um velho subiu à serra, não seguindo nisso o exemplo dos bons camponeses. Vendo o lobo a lançar-se sobre o Pedro, matou-o. Pedro agora salva-se. Entretanto, os camponeses acabaram por chegar, como chegam sempre e perguntaram ao velho: «Porque foste à serra? Não era evidente que o Pedro estava a mentir? Conhecemo-lo bem». Ao que respondeu o velho: «Quando ouço um pedido de ajuda, não pergunto se é verdadeiro ou não. Escuto e obedeço». O Pedro ficou surpreendido com esta resposta e perguntou também ele: «Eu estava a brincar com as palavras... A partir de agora já não posso brincar mais?» A resposta do camponês agradou ao tal rapazito que exigira a mudança da história. Foi ela: «Podes brincar sempre. Mas, ai! Cuidado com os demasiado sérios».
(Ao Rui Semblano).

centro
A queda para o centro é o princípio da atracção. No zigzague dos desejos, onde encontrar tal centro? Di-se-á que a dança dos corpos, enquanto dura, vai orbitando em torno dele, deslocando-o ao compasso do ritmo. Mas então tudo pode ser centro? Não, para onde o teu olhar se dirigir sem poder desviar-se, aí está o «teu» centro...

quinta-feira, setembro 18, 2003

critério

O sol a todos alumia... Será dádiva ou falta de critério?

This page is powered by Blogger. Isn't yours?