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domingo, setembro 14, 2003

outono
Mais uma vez as folhas amarelecidas no chão. Sempre a primeira vez.

sábado, setembro 13, 2003

efémero
Desde Platão que o belo está associado à duração. O que vai passando, o transitório, para além de ser uma mera aparência que pode ser «bonita», mas «falsa», não é ainda o feio, que lá virá, mas é o belo... ausente. Daí resultava todo um trabalho de idealização do existente que, em muitos aspectos, se assemelhava a uma elevação. Ascendia-se à «ideia», nomeadamente, a do belo. Todas as ideias compartilhavam esta mesma essência. O que explica que os poderosos sempre quisessem escrever as suas leis em letras de bronze, ou registar os seus feitos em monumentos de pedra. Todos esses materiais não eram «eternos», mas duravam, e durante muito tempo isso bastava. Eram uma espécie de aproximação. À medida que tudo pôde ser registado, a escrita, mas também a voz ou a imagem, mesmo o movimento pelo cinema, a arte tendeu crescentemente para valorizar a efemeridade. O século passado encontrou na efemeridade a sua característica chave. A partir dos anos 60s com a performance art esta tendência tornou-se clara. Por exemplo, Rob la Frenais considera que uma «performance autêntica se define por uma “zona de entropia”, por um “não-fechamento”, pela recusa da cristalização». Trata-se de uma evidente ilusão, pois o que perdura não são as matérias, podendo a «ideia» concretizar-se de muita maneira. Isso não impede que toda a obra se cristalize, numa imagem ou numa memória, que depois abre caminho através de uma conversa, ou noutra obra. A verdadeira efemeridade impedira qualquer repetição do momento da arte, mas nesse caso nem conseguiríamos separá-lo do fluxo que o encadeia a todos os outros. Mas é o espectador, aquele que está presente e se encontra com a obra, que tem de ser anulado, um pouco como pretendem todos os místicos da «rosa sem porquê», e sem espectadores. Se pensarmos que, historicamente, a ideia de arte este dependente da «perduração», procurando durar através de materiais «duradouros», a mudança é clara. De maneira mais radical nem podería haver qualquer registo, mormente por vídeo. Mas o que seria dos «embrulhos» do Pont Neuf ou do Reichstag por Christo sem registo? Seguindo este caminho origina-se um enredamento de paradoxos que podem ser mortais. Foi o caso de Robert Smithson que, em 1970, constrói a sua famosa Spiral Jetty no Great Salt Lake, na sua procura de uma obra non-site specific, puramente «entrópica». Ora, Smithson morre num desastre de avião quando estava a filmar a espiral em vídeo. Talvez fosse um mero acidente, mas não resisto a ver nesta morte um efeito da vontade de perdurar que se acha inscrita no efémero. A vontade de efemeridade equivale a um desejo de morte. Antes de mais, morte da própria efemeridade que está destinada a mover-se dentro do espaço arquivístico contemporâneo, que cresce desmesuradamente. Baudelaire que acompanhou com preocupação o surgimento da fotografia fica, aparentemente, a meio caminho do processo que nos levou até aqui, sustentando que a arte é, numa metade «eterna» e na outra, «efémera». Somente o efémero, na sua materialidade, nos está garantido..., mas na eterna efemeridade do efémero encontramos uma das vias do «eterno».

possessão
Ser possuído por um espectro, eis a fatalidade. Depende a qualidade daquilo que se é, da natureza do fantasma? Quem sabe, talvez só se possa sabê-lo quando nos tornamos nós próprios em espectros, ou no espectro de outrém, de um filho, por exemplo.

11 de Setembro
Se o mundo está a mudar, ou não, o futuro o dirá. Mas que tinha mudado, que estava em mudança, que se movia segundo trajectórias que se mantêm enigmáticas, nada o comprova melhor do que a desmesura e o horror dos actos de 11 de Setembro. Como sempre sucede as grandes mudanças passam quase desapercebidas, notando-se na estranheza de um ou outro sinal, numa espécie de desassossego íntimo que nos faz hesitar e tremer como se tivéssemos sido tocados pela asa de um anjo... negro. Sem nexo, sabe-se de repente que boa parte da terra será submersa, que aquecerá até temperaturas insuportáveis, ouve-se que a genética aperfeiçoará os corpos a pontos de fazer esquecer a doença e a morte, um filme trata como já corriqueiro o uploading da consciência e a criação de clones acelerados e geneticamente neutros. Se pensarmos que religiões, metafísicas e artes dependiam todas da vontade de controlar o «real», matematizável e sem falhas, para compensar, assim, a falha que a nossa finitude sempre é, na imperceptibilidade dessa mudança algo incuba que parece poder dispensar tudo isso. As fronteiras, todos os limites, os muros mais pétreos, revelam-se demasiado porosos, atravessados por forças que pensávamos conhecer, o dinheiro, o desejo, as imagens, os poderes, mas que afinal se resumem a um facto inquietante: vai reinando uma pura acidentalidade, a contingência penetrou nas nossas ilhas históricas de «ordem» e, de modo paradoxal, quanto mais aumenta o controlo maior é acidentalidade. Em 11 de Setembro chegou à superfície uma nova linha de clivagem que parece ser a última que se põe aos humanos, mas que é inaceitável: ou usar a contingência e o acidente, libertando a imensa violência que contém, como se verifica no 11 de Setembro; ou aumentar o controle, por meios técnicos, a tal ponto que se pode já prever o momento em que os controladores serão controlados. Bem precisávamos de uma outra alternativa...

imperfeição
Não precisamos de lutar pela imperfeição, ela está sempre ao trabalho.

terça-feira, setembro 09, 2003

bisturi
Claude Bernard afirmou nunca ter encontrado a «alma» na ponta do seu bisturi. Não admira, ela estava na mão e não na lâmina.

aluguer
Os «cobradores» de dívidas imaginárias pensam que tudo se resume em vender e comprar. Admiro os jagunços que alugam a sua arma para não terem de vender nem alma nem corpo.

graça
No século XIX começaram a proliferar uma série de entes: vampiros, duplos, espectros. Não é que não houvesse registo deles anteriormente. De facto, encontramo-los na antiguidade mais remota. O que é peculiar é terem começado a proliferar por todo o lado, abandonando as criptas dos castelos góticos para virem para a cidade. Para isso foi necessário que a fotografia e o cinema os fixassem e, primeiramente, que tivessem separado corpo e imagem, seguindo cada um o seu curso. Os fantasmas em busca de corpos, qualquer servindo, e os corpos cada vez mais reclinados na marquesa médica. Em rota de colisão. Há uns tempos vi uma instalação de Paul Kaiser intitulada Ghostcatching. À primeira vista era mais uma caçada, embora estética, não muito diferente da caça dos fantasmas feita pelo freudismo, ou da sua pulverização pelo positivismo que tanto se esforçou para expulsar o «fantasma da máquina». Neste caso, os fantasmas capturados são os movimentos do dançarino Bill T. Jones, registados através de 24 sensores e que depois são trabalhados informaticamente de modo a criar uma espécie dança virtual. Bill T. Jones refere que as linhas emergem dos seus movimentos e não do seu corpo, alcançando uma «qualidade do outro mundo quando essas linhas são reunidas e postas em movimento, com peso e intenção». Apesar de provenientes de Jones, ele sabe que não as pode repetir nem recuperar. São linhas que bailam, sem peso pois podem seguir qualquer direcção no ecrã, invertendo a milenar relação da dança com o peso. A dança foi sempre uma a forma imanente de elevação. Caía-se fingindo elevar-se e quanto mais perfeito fosse o fingimento mais artístico o efeito. A teologia radicalizou esta operação, criando o desejo de uma elevação absoluta, sem o peso do corpo, puras almas, abrindo caminho aos espectros. Ora, Gostcatching mostra que é possível criar a máxima leveza com peso mínimo, mas ainda com peso, sem cair na ilusão da leveza absoluta, essa vontade de escapar ao peso do corpo, que apenas faz perder o «sentido da terra», como dizia o Zaratrusta de Nietzsche. Que imediatamente antes afirmava: «Mesmo o mais sábio de entre vós é apenas um ser cindido, um híbrido de planta e de fantasma. Mas mando-vos eu que vos torneis fantasmas ou plantas»? Eis a maneira como a «alma» e o «corpo» se desdobraram: puro espectro ou pura matéria orgânica que são «sintetizadas» pelas alucinotecnologias contemporâneas, capturando a carne através dos fantasmas, da felicidade, do prazer, do consumo. Em Ghostcatching está em causa tudo o contrário. Trata-se de insuflar uma «alma» nas máquinas, pondo-a em comunicação com todas as almas, libertando assim a carne para outros ritmos e movimentos, à imagem das linhas que se movem fantasticamente livres pelo ecrã. É certo que a graciosidade das linhas parece impossível de imitar, mas nelas ainda ecoa a capacidade da dança para jogar com o peso e a queda, acrescentando-a com os novos meios técnicos. Olhar o que é gracioso faz ansiar pela graça, bastando não fazer pior que os dançarinos clássicos que, ao caírem, nos elevavam.

segunda-feira, setembro 08, 2003

pré-feito
Há textos que estão já redigidos antes de terem sido escritos.

língua
A primeira lente com que olhamos o mundo é a língua materna. Antes dela, eramos olhados pelas coisas e depois, com sorte, olhamos de frente as coisas, e as lentes

feérie
Deparei-me de repente com o velho dito medieval: «Per aspera ad astra». Através da adversidade, até às estrelas. Qual a ciência desta frase? Está toda no «som»: «spr»/«str». O «s» serpenteia com dificuldades em se libertar. Vai criando um labirinto pelas suas curvas, velozes e efémeras como as da cobra. Aspera e astra indecisas. Mas o «e» suaviza as dificuldade, fazendo recordar que em «aspera» está à espera «astra». Trata-se de impedir a implosão do «rt» en «tr»: «catástrofe». Uma língua puramente sonora por trás da língua latina, inventando uma língua humana. E todo o viver fala essa língua. Ela emite um lance forte, «str», «estratosfera», que na sua simplicidade vira o o serpentear para o alto, como uma estrela cadente ao contrário, caíndo para cima. Eis o rasto de luz que dissolve o «s» numa feérie impossível, e brilhante. Dirá algum gramático que isto é absurdo. Tem razão. Mas que se fique com a gramática, e a guarde bem. Apesar de ser feito de pó estelar as estrelas não são para ele. Que a adversidade pode ser áspera, mas nela nascem estrelas.

letras
Existirem em tempos flores pretas, raras e subtis. Eram as letras… antes das fonts coloridas.

negro
A principal diferença entre o cinema e televisão é a escuridão que existe na sala. Por uma gradação certeira passa-se da luz do dia para a luz eléctrica, desta para a penumbra e, depois, o negro. Esta gradação é o pórtico por onde se entra na magia do cinema que começa apenas quando se faz a escuridão absoluta. Começa o trabalho da luz sobre o olhar, do som sobre as fibras mais íntimas da carne, e da animação sobre a alma. A escuridão permite abolir todo o concreto, desrealizar a sala, tornando-nos num receptáculo da «imagem» do filme. Como se fosse preciso primeiramente sermos esvaziados para a podermos receber. Daí a perturbação das pipocas nos cinemas populares, ou o desassossego criado quando vamos ao cinema em companhia. A sua presença invisível arrasta-nos para outras paragens, e então o filme não funciona e a «imagem» escapa-se. Concorrência que os amantes dos filmes não podem suportar. Mas a desrealização nunca é completa, pois na maré do negro que tudo submerge sobrevivem pedaços de histórias, memórias e desejos, restos da vida, que sobrepondo-se ao ecrã impedem a rceptividade pura exigida pelo filme. O aumento exponencial da velocidade nos filmes, a intensidade do som, arrastando-nos sem fim, até ao fim do filme, ainda deriva desta necessidade, mas já sem se confiar no poder da escuridão. A luta é menos contra as «fixações» da alma do que contra as pipocas. A gradação para ao negro procurava abolir esse resto, travando-se durante breves segundos uma luta no ecrã interior, de modo a ampliar o ecrã da sala, fundindo.os. Isso faz do cinema uma experiência tremenda.

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