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domingo, setembro 07, 2003

lixo
Aqueles que o recolhem nas camionetas noturnas usam luvas... o que é sua forma de não ver.

dirty
Realizar uma utopia política é tão possível quanto um «orgasmo simultâneo» que fosse universal e durasse para sempre.

paisagem
Um dia em África ao chegar ao cimo da serra do Vandúzi estremeci como um Petrarca no Monte Ventoux. Mas já não sei se foi pelo acaloramento da subida, se abismado pela paisagem.

abatido
Entristece o abatimento das árvores abatidas.

primitivo
Uma das muitas maneiras de negar as imagens passa por insistir no «olhar», como se este estivesse aquém das imagens, e por isso estivesse receptivo para outras imagens, aceitáveis desde que «outras» e ainda por virem. A frase de Breton de que o «olho só existe no estado selvagem» é sintomática deste tipo de atitude. Trata-se de regressar a um «primitivismo» onde o olhar ainda não foi domesticado, onde as imagens surgem soltas e ainda não encadeadas pelos «sistemas», as «ideologias», etc. Não é por acaso que o vanguardismo flirteou tão intensamente com o «primitivo», como é o caso do Picasso das Demoiselles d'Avignon. Mas o primitivo só existia na imaginação dos europeus. Basta ver a complexidade dos objectos rituais dos Dogons africanos, ou dos ícones melanésios para se perceber que nada tinham de «primitivo» e, muito menos, eram imagens selvagens e soltas, sem qualquer sistema que as encadeiem. Pelo contrário, estavam estritamente associadas aos rituais e às mitologias de que derivavam. A sua aparente «desligação» deve-se fundamentalmente à maneira como os museus ocidentais as colectaram e exibiram segundo lógicas estéticas que não eram as suas, mas que eram inevitáveis. Os hieróglifos egípcios, os amuletos africanos, os geometrismos incas rapidamente foram arquivados como formas à disposição, constituindo uma espécie de clip art, disponíveis para qualquer uso. Por mais que se recue nunca se encontra, portanto, tal «olho selvagem» onde as imagens se originam, pois todo o olhar pressupõe um filtro eidético, que as lentes, os microscópios ou os telescópios vieram tornar visíveis, mas que sempre existiram. Também não se confunde com a poesia absoluta, que nada é sem as «imagens» em que se cristalizou e nas quais ainda late. A vontade de um olhar selvagem repetia, inconscientemente, o movimento que iria desligar as imagens dos seus frames e sistemas de enquadramento. Processo ambivalente, pois torna as imagens arbitrárias, embora também as liberte das estruturas que as dominava, fazendo-as repetir incessantemente. Neste aspecto, o olho «primitivo» em vez de ser um retorno à pureza do «primitivo», no qual as imagens começaram a ser feitas, é uma imagem do desassossego provocado pelo estranho nomadismo das imagens.

película
Entre nós e o inorgânico subsistiu sempre uma fina película, com muitos nomes: teologia, simbólico, cultura, outros ainda, muitos... Ela fazia-nos incoincidir com a «natureza» e demorava a queda da vida para a morte, para o inorgânico, tornando-a infinita e eterna. Agora que tal película se está a esgaçar e se apresenta cheia de buracos, a queda torna-se brutal. Às vezes ouço o som do choque dos corpos que passam por esses «buracos» e se estatelam no solo.

sábado, setembro 06, 2003

terminal
Chegados ao último limite somente é possível voltar para trás. Mas ao fazê-lo, disciplinados por esse saber, já tudo é distinto e devém mais precioso

espíritos
O corpo abafou os animal spirits, os «espíritos animais», e tornou-se uma prisão para eles. Feras desesperadas por tanto terem de esperar, estão apesar de tudo lá, só que deixaram de acreditar que existe saída. É preciso indicar-lhes que vale a pena estar à espera do carcereiro que os alimenta, para num momento de distracção se lançarem sobre ele e fugirem. Dar-lhes a esperança de escapar. Mas cuidado, os animais que se escapam podem perder o espírito, deixá-lo para trás na jaula onde estiveram presos. Ficam os espíritos vagos, à procura de corpos, íncubos de má-fé. E o animal que escapou sem espírito, vagueia em fúria, e recomeça a predação. Libertar os «espíritos animais» significa: continuar o trabalho que criou os «centauros» e as «sereias», inventar novas figuras de animais, usar de outra maneira o zoon, ser pomba, lobo ou pantera... à vez ou ao mesmo tempo.

fetichismo
Quando toda a vida se resume ao telefone então é fetichismo. O ídolo que tem dentro cresce, porque nunca toca no tempo certo.

inconsciência
Fui em companhia ver a Opera do Milho de Antónia Bueno, em Sergipe. Bela experiência essa, em que se cruzavam as memórias portuguesas com a música do nordeste e, acima de tudo, o vigor dos corpos pequenos e flexíveis dos nordestinos, que pareciam deixar fluir por eles a força pura que a todos alimentava, a uns mais graciosamente, a outros nem tanto. A todos arrastando. Eram meninas-mulheres esplêndidas e rapazes desajeitados que elas cobriam com a sua graça. Um amigo disse-me, pela enésima vez: «Eles têm vigor, alegria, e força. Tudo isso nos falta a nós, europeus e cansados». Desagradou-me essa frase, como já sucedera outras vezes, embora sem encontrar um sentido para esse desagrado. É mais da ordem da sensibilidade, que parece desvanecer-se quando inquirida. Pensativamente disse de mim para mim... É certo que nós Ocidentais estamos cansados, ele tem razão. Mas o meu distanciamento vem de outro coisa, de saber que eles irão ficar igualmente cansados, que isso é inevitável, e que nada nem ninguém conseguirá parar esse movimento. Mais. Senti como se no nosso cansaço actual ainda incubasse a alegria de se ter vivido, e bem. Recordação que volta uma e outra vez, trazendo com ela derrotas e vitórias, glória e fama, que conferem uma certa calidez ao nosso cansaço. Talvez suceda mesmo que estejamos a ficar cansados de estar cansados, talvez eles comecem a mostrar cansaço na sua jovialidade. Querem ser civilizados, americanos ou europeus. Não será essa a maneira deles estarem cansados? Apesar de tudo prefiro o nosso cansaço, à inconsciência com que não notam que está prestes a desabar sobre eles um cansaço terrível, que ainda não tem nome, para o qual nenhum dos nossos nomes parece servir.

sexta-feira, setembro 05, 2003

blogando
Ao Anarca Constipado: O anarquismo tem muitos caminhos...

noite
À noite todos são grandes poetas. Depois vai-se dormir…

contracapa
Na contracapa dos livros vem algum texto, e sempre o preço.

especulativo
Tornou-se insustentável ser «especulativo» em princípios do século XIX. Na avalanche do positivismo só o «real» e as suas representações legítimas contam. A especulação escandaliza, por parece implicar uma hemorragia do real, ferido metafisicamente ou financeiramente. Mas essa hemorragia irrompe da ferida que a representação abre no «real», como mostrou Hegel, o pensador especulativo por excelência, cuja filosofia depende justamente da tentativa de superar essa distância que vai dos reflexos às coisas. Na verdade, a especulação é um ataque aos reflexos, procurando abolir toda a diferença e toda a distância. Se num primeiro momento é preciso que a «natureza» se desdobre em «imagens» que a reflectem, seguidamente seria preciso que tais imagens sofram uma segunda reflexão. Na peculiar dialéctica de Hegel, a reflexão da reflexão é uma forma de anulá-la. O especulativo é o efeito inevitável dessa anulação, acabando com a diferença entre real e ideal, entre imagem e conceito, sujeito e objecto, todos os dualismos percorridos pela história. É nesta ideia que se funda a tese de que «o racional é real e o real é racional» e que é inseparável do anúncio do «fim da história». Serve de pouco dizer que se trata de uma posição arbitrária, que confunde a história com a textologia de um autor, Hegel, por exemplo. Mais do que arbitrária, trata-se de uma visão problemática que ainda nos interpela, se bem que subterraneamente. Para aquilatar dos seus perigos recorramos a uma outra imagem do especulativo, tal como é proposta no Narciso de Caravaggio, de finais do século XVI. Se no caso de Hegel tudo se passa no conceito, nas «categorias», em Caravaggio tudo é imagem, incluindo os próprios conceitos. Esta pintura apresenta-nos uma divisão essencial, uma linha de partilha entre a imagem e o corpo, ou entre a natureza e o artifício, constituída por uma linha de terra e de água, em que as diferenças sensíveis da matéria servem para pensar o imaterial. A redução da água à sua superfície espelhada é a base desta operação. É o caso do rio que reflecte o belo Narciso. Contrariamente a Hegel, verifica-se com Caravaggio que o especular não vem no fim, mas no princípio. A história começa na divisão especular e esta é inexorável. Talvez seja por isso que esta primeira reflexão, uma divisão originária, se encontre em ambos. Mas cada um deles coloca-se do lado oposto desta fractura. Mas a partir deste ponto seguem caminhos diferentes. Enquanto que em Hegel as imagens têm de depurar-se dialecticamente para entrarem numa hierarquia que tem no cume a «ideia absoluta». Está em causa uma segunda reflexão que tem por espelho o texto hegeliano e, se ele tem razão, toda a textologia ocidental. No caso de Caravaggio a segunda reflexão vem da arte e não da metafísica. É a arte que serve de espelho à divisão originária, dando-a ver na sua inteireza, sem dissipá-la no tempo, como fará Hegel. No narciso temos a imagem do incessante surgir das imagens a partir das coisas e é essa imagem que, tornada única, segue o seu curso produzindo efeitos incontroláveis, e que são sempre actuais. Isso só pode suceder porque este processo se repete sem parar em nenhuma imagem «forte», que o possa fixar. Para Caravaggio o especular é uma forma de abertura da pluralidade, mas sempre ameaçada. Daí que na pintura o especular seja apresentado como totalmente fechado sobre si. Os braços do Narciso «real» e os do Narciso reflexo fecham-se em círculo. A lição de Ovídio está aqui bem presente: este fechamento absoluto é sinal de morte. Narciso morre ao precipitar-se sobre a «sua» imagem com que se deseja fundir, desaparecendo ambos, tornados simples matéria inorgânica. Caravaggio parece ter consciência desta letalidade, que a arte não pdoe eliminar, mas pode adiar… indefinidamente. Narciso está curioso, pensativo, aparentemente absorto, fechado no círculo que não o deixa ver a ninfa Eco que lhe oferece amor. A pintura vai abalar o que existe de mortífero em tal absorção, transformando-se no especulum onde irá olhar(-se) o espectador, que assim a faz explodir. Não é que Narciso vá levantar os olhos, mas outros desejos vão misturar-se com os seus, abrindo o círculo especular em que Narciso se enrola. A arte dá a ver o círculo mas fica no exterior, mostrando que o especular está sempre em falha, que é ameaçado do exterior. Algo que insiste fora do círculo impede que este se feche perfeitamente. Seria possível que um outro quadro mostrasse o espectador a olhar absorto o primeiro quadro, incluindo deste modo a exterioridade finalmente controlada. Mas o problema continua, pois haveria algo que escaparia a esse segundo quadro, sendo preciso um terceiro, e um quarto…. Mas a arte não é sublime, e é não é incluída no especulativo porque é o «real» que resiste nela. Na prática é um «objecto» entre outros, com uma forma quadrada. O desvario da especulação é controlado pelo quadrado da arte, a sua forma geométrica perfeita, cuja linha de controlo está a meio caminho de se fechar em círculo e de explodir na physis. Duas via diferentes, portanto, a da arte e a da metafísica, mas que estão intimamente ligadas entre si. Explicando-se, assim, porque a metafísica tem sempre de colapsar, sem deixar de ser ameaçadora. O que sucedeu depois de Hegel comprova-o. A especulação do fim da história não conseguiu fechar o círculo pressuposto pelo saber absoluto, de maneira a absorver tudo o que sucedeu ou venha ainda a suceder. As imagens permanecem no interior do próprio conceito. No final da Fenomenologia, Hegel afirma que «o devir apresenta um movimento lento e um suceder-se de espíritos (Geistern), uma galeria de imagens, cada uma das quais, dotada com a riqueza total do espírito, desfila com tal lentidão justamente porque o si tem de penetrar e assimilar toda essa riqueza da sua substância». Se a história não chegou a fim, se sobreviveu a si própria, então essas imagens são inabsorvíveis no círculo especulativo. Mas este não desapareceu, mantém-se como uma imagem mais daquelas que constituem a «galeria» onde Hegel pensou poder encerrá-las. O museu da história. Hegel ficou preso no abraço de Narciso com a sua imagem, enquanto Caravaggio dela criou uma nova figura, acrescentando o espaço da arte. A este nenhuma imagem, nem a totalidade delas o consegue esgotar. Se Hegel era mais do que um simples paranóico, se nos apresentou a forma final do especulativo, então este está longe de ter desaparecido. Tornou-se invisível porque já não é apresentável como nos tempos de Caravaggio. Não se vê, porque está por todo o lado, coincidindo com a existência. Hegel tinha razão. O especulativo realiza-se no momento em que o círculo se fecha, e nele tudo foi incluído, ou está a ser incluído. A forma actual da sua realização é a técnica.

quinta-feira, setembro 04, 2003

cobardia
Tenho pensado em deixar de fumar. Não o posso fazer por enquanto, pelo menos enquanto os fumadores estiverem a ser perseguidos. Seria sinal de cobardia. Tenho mais medo dos perseguidores do que do tabaco, apesar de «ser prejudicial para a saúde».

brincadeira
Insistir no tempo é sempre uma dramatização desnecessária. Por exemplo, Borges considera que «o tempo é a substância de sou feito». Finjamos aceitar que assim é. Diria então que somos uma espécie de bomba de relógio retardada, mas inexorável. Uma máquina que, por ser tal, podemos mexer. Mas é uma brincadeira perigosa.

embaciado
Antes de se voltar violentamente contra os espelhos, como o padre António Viera que dizia que «o espelho é um diabo mudo», o cristianismo considerava o mundo como um espelho onde Deus se reflectia. Estou a referir-me a uma conhecida passagem de S. Paulo em que este esplêndido filósofo afirma que, a Deus, «por agora vemos embaciadamente num espelho, mas então veremos face a face». O espelho dava a ver, mas ao mesmo tempo que ocultava aquilo que deixava entrever. De algum modo servia de interposição relativamente ao invisível, que só através dele se tornava visível. Mas era uma interposição provisória que desapareceria com a epifania do juízo final. A recusa por Vieira do espelho revela-nos uma metade do segredo do embaciamento do espelho. O que embacia o espelho é a respiração demasiado próxima daquele que está diante dele, e que pretende passar para o lado de lá. Mas do lado de lá do espelho só existe o cobre com que era feito o espelho antigo, ou a fina película de prata com que são feitos os nossos. Pura matéria que, precisamente, o espelho tem de aligeirar, de duplicar, para que no vaivém entre a imagem e coisa possam surgir os deuses e os seus milagres. Se o espelho desaparecesse dissipava-se ao mesmo tempo o Deus que S. Paulo mostrava na superfície perfeita da sua escrita. Foi esse tipo de escrita que desembaciou o espelho, a pontos de fazer dele um objecto banal, para o qual olhamos sem grande sobressalto. É melhor aceitar o velho «espelho», fazê-lo durar todo o tempo que for possível, deixando-o entregue à sua missão misteriosa. Se calhar um dia, já sem homens por perto, ele surgirá novamente embaciado… por um outro respirar.

quarta-feira, setembro 03, 2003

barco
A tripulação do barco que vai caçar o Snark é bem variada, mas no barco dos loucos cabem todos, e nem é possível distinguir os loucos dos sãos. Aquele que berra que é «são» é o pior dos loucos. A única coisa a fazer é silenciar e esperar. Esperar o quê? Que o barco chegue a algum lugar.

como
O perfume está para Deus assim como a carne está para o homem.

beri-beri
Se só existisse a linguagem gestual alguns pareceriam atacados de beri-beri.

terror
Seria preciso distinguir entre «terror»» e «medo». Enquanto o segundo é sempre definido por uma imagem particular, tem-se medo de algo, o terror é um medo pânico, sem objecto preciso, que pode vir de todo o lado. Que tudo possa ser letal, provocar a morte eis a fonte de terror, que alguns friamente utilizam para atingir efeitos calculados. Que tudo seja letal, que a morte ou o «pior» posso vir de qualquer lado, de qualquer coisa e de qualquer pessoa, eis o novo, mas também o mais arcaico. Foi justamente por aí que tudo se iniciou. Neste sentido a luta contra o «terrorismo» é necessária e é de sempre, embora falhe necessariamente o seu objectivo, impedir a disseminação do terrífico. Não custa imaginar que os espectadores que vêm os noticiários das bombas que vão caindo um pouco por toda o lado no Afeganistão sintam um medo que vem de longe, como se as bombas pudessem instantaneamente mudar de curso, e cair sobre as suas casas. Mas caiem sempre sobre as suas almas. O «terror» é sempre anti-político pois liquefaz as «almas», tornando-as moldáveis para qualquer obra e qualquer arquitecto. E aqueles que perpetraram e arquitectaram o 11 de Setembro são arquitectos da morte. Isso não obsta a que o efeito assustador - uso a palavra pois às vezes devemos ter medo de não ter medo, o que amortece a nossa capacidade de estarmos vigilantes -, é de se estar a o perder o pé pela própria necessidade de ter de se lhes responder. A defesa do assassinato de Estado, a hipótese de voltar a usar a tortura física ou outra, a impossibilidade de meter uma vírgula no assunto sem despertar o escândalo, são sinais de uma guerra da «civilização», mas da nossa «civilização» contra si própria. E também se vai perdendo o pé esteticamente. Basta lembrar que, numa entrevista, o músico vanguardista alemão Stockhausen veio afirmar que os atentados e 11 de Setembro foram «a maior obra de arte que alguma vez existiu». O nihilismo de Stockhausen que, como todo o nihilismo, que se estetizou sustenta alegremente o seu «fiat ars pereat mundus» (Benjamin), perturbou a moral pública alemã, que está tão precisada dele quanto os talibans e a AL-Quaed. Na verdade, ns próximos anos muito depende da guerra contra o «fundamentalismo». O fundamentalismo na sua vontade de absoluto cegando-se para não ver a fragilidade do humano e parcialidade das suas obras, só pode ser abalado por «bombas de nihilismo», todas as outras bombas são meras vitaminas do Absoluto.

terça-feira, setembro 02, 2003

blogando
Regressado de férias, durante as quais bloguei aos solavancos, tenho de agradecer as palavras amáveis do Ouro Sobre Azul, com quem me fui carteando, e o comentário da Isabel do Monologo. Li com interesse o comentário de Alexandre Franco de Sá responsável pelo excelente Caminhos Errantes e, também, a bem-humorada referência aos «ardilosos reflexos» que vou publicando, feita pelo Bruno Sena do Avatares do Desejo. um nome que me teria dado jeito se estivesse livre. Interessaram-me também as «variações» de Claire lunar do Little Black Spot sobre a «ferida» e as aposições de Rui Almeida do RUIALME sobre o «amor» que, no seu caso, é amor pela poesia. Agradeço ainda uma correcção a um lapso desagradável num dos meus posts feita pelo Terras do Nunca.

amor
É conhecido o imenso trabalho histórico e literário necessário para «inventar» o amor. A sublimidade do amor de Tristão e Isolda que, de tão absoluto, só se realiza pela morte, ou a representada na tragédia de Romeu e Julieta para o qual todos os factos do mundo são meros «obstáculos», são peças mestras de tal invenção. E muitas outras. Mas o amor rapidamente se tornou numa espécie de «electricidade» da maquinaria que cria o «sujeito», os indivíduos normais, como Orwell põe e, evidência no seu 1984: mais importante do que destruir Smith é que ele «ame» o Grande Irmão. Todas as paixões que, na sua pluralidade, são sempre formas de configurar o desejo, tenderam a ser traduzidas a partir do amor, como se este fosse o fundamento que dá sentido a todas elas. O amor da humanidade, do bem, da pátria ou dos chefes, esse estranho Eros, liga o disperso da pior maneira, secando as paixões, mas sem real capacidade para «prender» o desejo. Há muitos anos, lendo Fourier, pensei para mim que o amor está para as paixões como o dinheiro para as coisas. Tal como este, abstractiza-as e dissolve-as. Demasiado geral, destrói o que ele próprio estava encarregado de ligar.

mestres
Um aviso aos que querem ser «mestres»... Todos os mestres são embusteiros. Eis a descoberta com que o discípulo passa a mestre. Aquele que ficou para trás, ou a lado, ou além, fica-se a rir, com alguma tristeza, pois conhece demasiado bem essa história.

resistência
O que é fundamental resiste… à interpretação, ao domínio pelo pensamento, à mestria da escrita. Sucedeu-me às vezes ser assolado por essa sensação. Despertou-ma um texto de Beckett, ultimamente um poema de Mallarmé, sempre associados a uma experiência grave. Volto a eles, repenso-os, releio-os… e nada. Ficam mudos, deixando-me do lado de fora deles, mas possuindo-me intimamente. Como se fosse ainda cedo… para que iluminem o que está em causa. Apercebemo-nos então que às vezes somos escolhidos por textos, que também os textos nos retiram do bando… dos cem irmãos de que fala Musil. Resistem, e ficamos sem saber porquê. Mais um gesto, mais uma palavra, outros textos, e tudo se decide. Subitamente, sem esforço algum, dirão o que têm para dizer. Já é possível escrever… o fundamental já passou. E o que está em causa esclarece-se.


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