<$BlogRSDUrl$>

domingo, agosto 31, 2003

artistas
As artes já mal conseguem resistir aos «artistas». Dever-se-à a que todos somos artistas, como pretendiam Lautréamont ou Beuys? Artistas por natureza, mas sem disciplina para as artes das «artes»? Não, nada disso. É o amor a mais que está a destruí-las.

ocupação
Como sempre sucede, e agora também, na viragem de qualquer coisa, de um milénio, por exemplo, fala-se de fim do tempo, fim da história. Cansados de tantos «fins» falaríamos de «fim do fim». Cai-se assim na «eternidade» de um agora sem tempo, sem dinâmica? Movimento escatológico uma e outra vez repetido, que acabou por se disseminar por todo o lado, levando a uma espécie de apocalipse imperceptível, mas que atinge todas as coisas por dentro. Fórmula disso: «Tempo é dinheiro». Como na «modernidade» tudo é trocável por dinheiro, este é a forma das coisas, sendo o seu conteúdo o tempo. Tempo que se torna cada vez mais curto, tempo de fazer, tempo de consumir, tempo de dinheiro, dinheiro como tempo «acumulado» e arquivado, tempo a crédito de dinheiro já gasto… bem, um florilégio de tempo e dinheiro. Vários sinais levam-me a propor outra fórmula: «Espaço é dinheiro». Só com o espaço se tem tempo e dinheiro. Dominados pelo espaço de tempo, tudo é paisagem a ocupar, a ornamentar ou a «controlar». Bom exemplo, a publicidade: dado o zapping já não se quer mobilizar apenas as paixões, mas ocupar o espaço por onde estas se irão espraiar. As paredes das casas, os placardes das cidades, os écrans da TV ou do cinema, tudo é ocupado por imagens e sinais, por marcas e emblemas, cuja única função é ocupar o espaço, e, numa guerra surda, impedir que outros ocupantes possam fazê-lo. O Imaginário enquanto espaço «mental» sofre a mesma ocupação, invadido por pedaços de músicas irreconhecíveis, de fragmentos de imagens de proveniência incerta, repetições e aparições que a psicanálise procura mapear, sem sucesso. Que se faça dinheiro assim, que o espaço seja dinheiro, é porque as paixões, vagueando sem encontrarem pontos para se concentrarem, pousam sobre tudo. E tudo está ocupado.

cura
Do «conhece-te a ti próprio» ao «sara-te a ti próprio» vai um passo tão desmedido, que ninguém parece capaz de o dar. Dessa desmesura viveram antes os confessores e, hoje, os psicanalistas. Dispenso ambos…Ah! E os comprimidos também.


sábado, agosto 30, 2003

máquinas
No teatro antigo quando a intriga se tornava tão intrincada que tudo se reunia num nó cego, ou porque exigia uma solução miraculosa e impossível entre os humanos, surgia então um deus que descia por um sistema de cordas e roldanas dos cimos. Chamava-se deus ex machina a esta descida. De algum modo isso significava que os humanos não bastavam para encontrar a saída. Dada a fraqueza dos efeitos especais da altura era este um pobre deus, mais fraca ainda a máquina rudimentar que o transportava. Apesar de tudo essa estrutura funcionava sempre, mostrando que estava em causa uma máquina total de produção do «impossível» com meios simples. Quando os modernos decidiram tomar o destino em mãos, Deus desapareceu, mas só aparentemente, pois a máquina, ela, domina quase inteiramente. Agora sempre que existe um problema crucial ela «desce» de imediato, a máquina aparece. Sózinha? Lacan referiu um pouco enigmaticamente que entrámos na época da machina ex deus. O que existe de brutal nesta associação é a ligação directa que se estabelece entre Deus, ou os deuses no caso da antiguidade, e as máquinas e, em geral, a técnica. Pensando melhor, esta ligação explica muita coisa. Se extraímos todas as nossas máquinas da natureza, e se esta contém um número indefinido delas, é preciso saber procurá-las. É sempre necessária uma imagem que atraia o olhar para o sítio certo. Ora,as imagens mais potentes da história ocidental vieram da teologia. Foi esta que inventou corpos sem peso, carne eterna, ressureiçõs, almas sem corpos, a prioridade do verbo. Muito da técnica moderna explica-se pela tentativa de criar máquinas a partir destas imagens. Na verdade, se os deuses eram desnecessários, já era amis difícil passar sem o maravilhamento que provocavam. mais ainda, quando são desejados intensamente. O mais arcaico coincide com o mais moderno. Assim, em S. Paulo lê-se que «O útimo inimigo a vencer é a morte» (Coríntios, I, 15, 26), o que corresponde a uma necessidade absoluta da teologia, seja para justificar a vida que se tem, seja para conquistar a todos para a «vida eterna». Ora, na prática este dito transformou-se num programa. E a luta contra a morte alimenta a genética, a pesquisa sobre a reversão da degenerescência celular, a cirurgia estética, a clonagem ou o uploading da consciência para robots. etc. Todas procurando resolver por meios técnicos algo que foi inventado teologicamente. A técnica actual é, por isso, parente da máquina que descia quando a machina ex deus intervinha no palco, mas a que ninguém dava atenção, prque só se tinha olhos para Zeus. Agora, já só se vê a máquina e os deuses toranram-se invisíveis, embora continuem a ter força. Até que um dia saia a machina ex machina. Mas essa história já nos terá como espectadores, será uma outra história....

atracção
As leis da gravidade tornaram a atracção dos sólidos explicável. Mas a atracção enquanto atracção, como compreendê-la? Essa espera ainda o seu Newton...

sexta-feira, agosto 29, 2003

números
Existe uma numerologia simples que rege as diversas maneiras do «real» , uma espécie de pitagorismo secreto que se manifesta desde os primórdios da cultura. Durante muito tempo era nesse pitagorismo que se baseavam as diferenças entre o oriente e o ocidente. O primeiro seria determinado pelo Um e o segundo pelo Dois. Dito de outro modo, o oriente seria budista e a Grécia heracliteana. Mas esta destrinça é insuficiente, pois o zoroastrismo recorria necessarianmente ao Dois para desenvolver a sua estratégia maniqueista, e os gregos desde Parménides que estão fascinados pelo Um. No caso dos orientais, dos persas por exemplo, o Dois servia para melhor se operar a redução do tudo ao Um, ao Bem, e no caso do budismo a fusão com o Um é sinal de desprendimento total do mundo, do Nirvana. Estamos diante da «eidética» própria da escravidão antiga. Por mais que recuemos no tempo, encontramos uma e outra vez a bem estabelecida dialéctica entre o Um e o Dois, dominada pelo desejo de fusão, de abolição das separações e das diferenças. O platonismo desenhou uma imagem decisiva da estrutura de redução do Dois: do real e da aparencia, das ideias e dos fenómenos. Foi à teologia medieval que coube realizar historicamnete este programa, ela que considera o Dois como da ordem do diabólico, pretendendo aceder ao Um, ao Simbólico, no final da história. O Dois seria, assim, algo passsageiro, fonte de sofrimento, mas passado. O efeito inevitável deste tipo de estratégia é a depreciação do existente em proveito do possível, ou melhor, de uma imagem perfeita e única do existente. Daí a importância da divisão do espaço, o da vida e o do além separando-se. A obsessão pelo Um não desaparece com os modernos, embora se lhes deva, nomeadamente com Hegel, uma nova forma: a da dialéctica. Agora o que conta é o Três, que mais não é do que o acescento do tempo. É no tempo que a guerra do Dois se abole atingindo-se o Um no final dos tempos. Sabemos todos como a violência desencadeada por dialécticas, que utilizam as coisas e os corpos para os mobilizar em direcção ao Um perfeito e harmonioso. Sair do império do Um passaria por esquecer todo este pitagorismo, ou então por levar a sério o Dois. De facto, o que caracteriza os humanos é estarem no «meio» do Dois, cuja melhor imagem é a de Narciso. Mal o jovem se olha no espelho do rio de imediato se divide em dois, e ele morre ao querer voltar a fundir o seu corpo com a imagem, drama do Um que a erótica grega tematizou infinitamente. A mera representação mítica deste «caso» implica um novo desdobramento de Narciso, que se desmultiplica pela poesia, a pintura, ou mesmo a psicanálise. Muitos dizem que o Dois é o número da guerra e do duelo, mas esquecem a lição de Hesíodo de que no princípio era o Dois: guerra e amor, caos e eros. O Dois está em jogo na divisão que os separa, e nenhum deles pode capturar a sua potência, nem o amor nem a guerra. Esta divisão é o lugar de difractamento do «real», pulverizando-o e multiuplicando as imagens onde pode ser olhado e surpreendido. No espaço aberto por esta divisão cabem o Um, o Dois, o Três e… todos os números e anti-números pensáveis.

ordem
Qualquer ordem serve, mas a melhor ainda é a alfabética. Pelo menos não oculta a arbitrariedade em que se funda toda e qualquer ordem

jogo
Dessacralizado o mundo nenhuma regra é absoluta. Exceptuam-se as regras dos jogos que temos de considerar absolutas, porque podíamos ter escolhido não jogar o jogo.

quarta-feira, agosto 27, 2003

grito
O grito tem a capacidade de fundir tudo. O que está à volta, no momento de terror pânico ou de dor intensa, reduz-se a nada. A dignidade do senhor digno abandona-o, ficando reduzido a uma boca escancarada, em O. Feito em papa, o mundo entra pela boca escancarada. Depois, se não morremos, trata-se de «cuspi-lo».

vida
Progressivamente fui-me afastando da desalentadora filosofia heideggeriana, que define os humanos como seres-para-a-morte. Tal como me tinha afastado das metafísicas da vida, que tanto entusiasmaram o século passado. Desencaminhando-o, também. A morte é evidente, e a vida também, e é banal dizer que não há uma sem outra. A-vida-a-morte, eis a última mistura que assola o humano. Porém, estar no mundo significa estar aquém de a-vida-a-morte, como sucede com todos os animais, que caçam, acasalam e cantam, durante… porque só têm durante, nada mais. Ou estar além, com o animal por trás, sem durante… porque o humano quer a eternidade. Um preceito essencial interditaria de falar de a-vida-a-morte, justamente por estarem sempre aquém ou além… de nós. É certo que se fala muito da vida, e menos da morte, mas não se deveria falar de nenhuma. Falar da vida não é viver, como falar da morte não é morrer. Mas prejudica a «vida». Mereceria o reparo de que acabei de falar sobre o que prometi calar. Mas é pela «penúltima» vez.

limites
Só nos deveriam afectar as coisas que vêm antes das últimas coisas e as primeiras que vieram depois das primeiras coisas.

terça-feira, agosto 26, 2003

ferida
Nas palavras da dor, que as palavras também são dolorosas, tudo depende da maneira como cada um vive a sua «ferida». Está-se sempre do lado de cá ou do lado de lá dessa ferida, desferida ou por desferir, ligando tudo. O «conhecimento do dor» está obcecado pela ferida, mesmo se não sabe o que ela é. Nem todos são médicos, e é bem incerto que estes saibam mais e melhor…. das coisas da dor. Precisamos de um critério, que encontro na frase enigmática de Joe Bousquet, esse grande ferido da primeira guerra, e que tão grande poesia extraiu da sua ferida que o lançou jovem num leito. Dizia Bousquet: «A minha ferida existia antes de mim». Frase suficientemente bizarra para atrair todos aqueles que se espantam com a beleza das frases, que vem aliada à sua rareza, à incompreensão que trazem. Como atraiu Deleuze que, num último texto, pouco antes da sua morte, se lhe refere, considerando que ela está sempre aí virtualmente, efeito da imanência de «um estado de coisas e de um vivido». Por existir virtualmente, acabará sempre por actualizada. Revelar-se-à a um como cancro, a outro como sida, ainda a outro como morte por amor, outras ainda, mas sempre inevitavelmente. Repugna-me esta ideia, justamente porque à ferida que nos altera a carne ou desaltera a alma, depois de desferida, pouco mais nos resta do que …. sarar. E sarar depende de um saber da ferida. A ferida em si, aquela que receamos toda a vida, não tem consistência, apesar de fascinar absolutamente todos os grandes feridos. É que ela não é nunca «esta» ou «aquela» ferida, um cancro, ou um desamor. É quanto muito uma figura vazia da morte, que se apresenta vinda de todo o lado. Mas isso importa pouco. Morre-se de muita maneira, pelo mero facto de se viver, de se estar metido no mundo, de ter um corpo. De estarmos enredados em ligações. O que conta é a maneira. Se a morte conta menos do que a «maneira» de morrer, e a maneira é a forma da vida, falar da «ferida» e do seu cortejo de dores, mais não faz do que disseminar a morte no meio da vida, metendo-a insidiosamente por trás de cada coisa, de cada pessoa? É a própria vida que se torna letal. A vida fica suspensa da ameaça da morte, que se expressaria numa infinidade de feridas, cada uma delas á espera dos seus corpo e dos seus nomes. E para cada um de nós ficaria destinada a «sua» ferida». Ora, esta não pode ser nossa, tal como a carne nos escapa. Nossa apenas a maneira como acolhemos a ferida que está sempre a vir, que pode sempre vir, que se calhar já veio. Eis o princípio de cura: é preciso esquecer a «ferida» que veio para dar lugar a outras feridas. Isso é possível porque a «vida» é mais forte que tudo aquilo que a fere. Lição ainda de Bousquet: «J’ai toujours eu plus de vie que ce qui me frappait. Il n’y a pas lieu de m’en louer. Ce qui est ne perd jamais ses droits». Ter mais vida do que a vida das feridas é o direito absoluto que nos assiste. Pode-se ter uma vida ferida, pode-se viver ferido, que isso não obsta à exuberância das obras, dos gestos e dos prazeres. Na alegria da saúde, por entre todas as feridas, podemos sempre ser feridos…. por Eros, ou por Apolo.

afinidades
O segredo medieval por excelência, que os românticos tomaram a cargo, é que tudo remete para tudo, que tudo tem afinidades invisíveis com tudo. Quando se reconhece o facto o segredo desaparece, e as afinidades tornam-se em leis. Que já não funcionam.

segunda-feira, agosto 25, 2003

economia
Disse Martí um dia que nalgumas circunstâncias toda a dignidade humana se concentra num único homem. Estranha economia esta, mas que é a única que posso compreender.

lei
Desde sempre me inquietou a questão da carne. A paranóia que encontrei em Toronto sobre o tabaco, a bebida, etc., levou-me a repensar o assunto. No caso da proibição do tabaco, que está a fazer dos fumadores vítimas de um fascismo subtil, disfarçado de argumentos científicos, tudo se baseia no mais arcaico dos medos, o do contacto. Sabe-se bem que numa conversa a dois ou mais se trocam além de palavras, milhões de bactérias, virus, odores, etc. Sucede apenas que o tabaco serve de tracejador dessa circulação que de outro modo ficaria invisível. Ora, o contacto é o grau zero da violência. Subjacente a isso está a ideia de que cada um é proprietário do seu corpo, que os eu corpo «próprio» está a ser lesado. Eis uma ilusão jurídica que primeira dor forte refuta, o que não desmente a sua importância. Como reconhecer o seu peso? É preciso reparar que, prévio a tudo isso, existe a única espécie de comunismo pensável, o da carne. É semelhante comunalidade da carne que nos indistingue dos animais, que permite usá-los como cobaias, que acolhe o sangue ou os órgãos de outra pessoa qualquer, que não impede o canibalismo ou o assassínio em série, ou o roubo de órgãos, ou a matança de gado ou a matança de homens que era afinal toda a «filosofia» dos nazis, etc. Quando se chega a este afrontamento directo da carne, percebe-se que a lei tem um papel decisivo. De facto, não podemos nunca apresentar-nos de carne nua, e o véu mínimo que a envolve é formado pela lei. Mas a Lei por si só é insuficente e pode mesmo abafar a carne, e é desta que nos vem toda a força e toda a alegria. Será possível fazer jogos em que a carne seja visada mas nunca atingida, como pretendia Hobbes? Ou então dar livre curso a todas as paixões que a possam afectar, como pretendia Fourier? É difícil responder, mas o que revolta é a entrada do dinheiro e do poder neste domínio...


abstracção
Sempre que um princípio único domina perde-se o concreto. Seja a fé, o amor, a electricidade ou o dinheiro.

This page is powered by Blogger. Isn't yours?