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domingo, agosto 03, 2003

blogando (19)

Como o Pedro Lomba da Flor de Obsessão partiu de férias sem nos deixar o seu prometido tratado sobre «Parménides e o fio dental» decidi-me a ajudá-lo. Eis o resultado das minhas reflexões:


É preciso primeiramente afastar o anacronismo de juntar o pensador do Ser e o fio dental, pequeno em comparação ao Ser, e que está na outra ponta do tempo, em 2003. Mas na medida em que é um «fio» podemos dizer, sem exagero, que liga as duas pontas do tempo. Assim, esse fio, enquanto manifestação do «fio» absoluto liga Parménides e Pedro Lomba, indubitavelmente. Removida esta primeira dificuldade que afinal não era inultrapassável, vamos então à magna questão da relação entre «Parménides e o fio dental», que Lomba tal Fermat deixa na margem de um digitoscrito para tortura de todo o espírito inquiridor. Várias abordagens são possíveis, a mais evidente delas seria a definição do Ser de Parménides. Assim, o Ser «é e não é possível não ser». Se o «fio dental» faz parte do Ser, então Parménides, sem conhecer esse fio, criou o espaço onde tudo o que existe, tenha existido ou venha a existir tem um lugar preparado. Incluindo, portanto, o «fio dental». A vitória é demasiado fácil e o nosso tratadista não se satisfaria com ela. Sigamos outra via, um pouco mais arriscada. Diz Parménides que a «Physis» «inventou Eros como o primeiro de todos Deuses». Esta via parece mais próxima da que o conhecido ensaísta deveria seguir, já que no mesmo post fala da «estupidez do amor». Deixemos de lado a estupidez, que se aproxima perigosamente da vertente do «não-Ser» para desenvolver esta indicaçao preciosa sobre o «amor», que finalmente é outra palavra para Eros. Ora, que caracteriza o deus Eros segundo os antigos? A resposta é simples, a potência de «ligação». E pode ligar-se sem um «fio» ou uma linha qualquer? Evidentemente que não. Ora, o «fio dental» pertence à espécie dos fios e, portanto, está subsumido na visão parmenidiana do «Eros». Se a ligação é a primeira característica do Ser, e se os fios ligam ou põem em ligação então o «fio dental» releva do Eros. A coisa começa a tornar-se a tornar-se intuitiva, mas ainda resta uma dificuldade. É que o «fio dental» não é compartilhável, dado que é de uso exclusivamente individual. A hipótese do Eros complica-se um pouco. As trevas adensam-se e o Pedro Lomba la longe, com os seus livros, sem nos ajudar minimamente! A solução mais provável que ele seguiria seria a seguinte. Se o «fio dental» não liga materialmente ninguém, não deixa de criar uma ligação «imaterial» que pode ser activada a cada momento. Está em causa uma ligação indirecta: ao tornar os dentes brancos, limpos e resplandecentes irá criará uma potência de atracção à distância, a que uma mulher, todas as mulheres e em geral todos os entes, não podem resistir. Mesmo que alguns pudessem resistir isso não seria seguro relativamente à totalidade dos entes. Assim, num caso ou outro a ligação funcionará, e se não for com um indivíduo será com outro qualquer que use o «fio dental». (Deixa-se de lado, por impertinente, a questão de saber como alguns indivíduos «engatam» sem usar o «fio dental»). Em suma, a ligação não precisa de ser directa, podendo ser indirecta. Tudo indica que o humilíssimo «fio dental» é um instrumento do Deus Eros postulado por Parménides. Se calhar é mesmo a missing link da sua ontologia, que fez correr rios de tinta, e que pelo arrojo de Pedro Lomba e a ajuda deste modesto colaborador chega agora à humanidade blogal…

moinho

Nas águas correntes dos rios ou na força do vento estão virtualmente presentes toda a espécie de moinhos. Todo o trabalho está em extrai-los do rio ou do vento e em instalá-los a meio caminho da terra. Não se trata de invenção mas de extracção, tal como se vai buscar debaixo de terra minérios que já lá estão sem serem visíveis. Uns atrás dos outros foram surgindo moinhos vários, o chinês leve como a pintura, o pesado moinho de pedra transmontano, o esguio moinho holandês, mas também o fantasmático moinho de Don Quixote. A física mostrou-nos que todos os moinhos, como aliás todas a máquinas, são extraídos da matemática e não da «natureza». O moinho mais eficiente será aquele que mais se aproximar das relações matemáticas. Eis o moinho «em si», absoluto. Às vezes surpreendo-me pelo facto de terem surgido moinhos fora da matemática, ou recorrendo a uma matemática fantástica. As formas particulares dos moinhos são monumentos de um passado em que a força se desperdiçava? Ou são sinal da força luxuriante dos desejos, limites e sonhos dos construtores?

prosa



inédito
A poesia não vem simplesmente da imaginação, nem da inspiração, nem do esforço. Ela extrai-se das coisas, dos dias que passam, e também dos livros de poesia. Não precisa de ser escrita, pode ser o efeito de um risco de um lápis, como é o caso da poesia de Fernando Pessoa aqui exposta. Esta poesia é formada materialmente pelos riscos de Pessoa que um dia, talvez sem intenção, a extraiu das Poésies de Mallarmé. Não se trata de simples frases, que depois foram transmutando-se em poesia, escorrendo para as letras em português. É antes poesia material do lápis e de um olhar que desintegra o texto, libertando outros poemas que contém dentro. Subtraindo a Mallarmé algo que o complicava, simplificando-o absolutamente, e ao mesmo tempo criando as pontes por onde a poesia vai errando em busca de poetas. Será absurdo dizer que encontrei um inédito de Pessoa?


riscos
Será possível uma poesia feita de riscos? Por mim sustentaria que todo a poesia tem origem no vigor de um traço que desinsere daquilo que outros poetas ou a vida laçaram e fecharam numa forma. Alguma violência existe em semelhante acto, que acaba sempre por destruir obras absolutas, às quais nada falta, nem nada está a mais. Mas porque a poesia é prioritária sobre as obras e estas sobre os poetas é dela própria que vem essa violência doce, que tem como única justificação lançar mais poesia no «real».


saltos
No caso limite se os riscos de Pessoa tivessem sublinhado todos os versos, sem excepção, então a obra produzida pelo poeta que lê seria exactamente igual à produzida pelo primeiro poeta. Não é assim, pois os riscos, mesmo que fossem totais, ao sublinharem pontilham a poesia e transformam-na. Haveria sempre deslizes no riscar, riscos mais fortes e mais fracos, mais rectilíneos e outros curvos. O próprio tempo do risco que se acrescente ao poema não pode deixar de o alterar. Quando os riscos são esparsos salta à vista as interrupções e intermitências da poesia produzida pela leitura, anulando todos os outros versos, que custaram anos de trabalho a Mallarmé e que Pessoa terá riscado bem mais rapidamente.


obra
Que obra produz o riscar? É legítimo associar os versos riscados e considerá-los definitivos? Ou será que esses versos riscados, depois de esquecidos irão entrar noutras poesias, produzir novos arranjos e outros versos? Tudo indica que as duas ocorrências são verdadeiras. Mas isso não nos deve impedir de ler a poesia material do lápis, enquanto tal, que afinal é poesia feita a meias, sem autor que não seja a Dama Poesia, para usarmos uma fórmula de Llansol.


poema



Um poema acrescenta-se a outro que veio de outro ainda... Tudo de resolve no «e» inicial que é o da própria poesia cujo começo equivale sempre a uma continuação. Descida do céu por ela inventado, o sol substituído por uma lâmpada a gás em Mallarmé, eléctrica em Pessoa, a poesia enleia-se na memória do azul que ela própria criou, e que já só sobrevive na «filigrana azul da alma». Desertou o mundo e perde-se perdendo-o. Passagem da criança ao homem na qual se perde algo de essencial: a voz pura dos deuses, que os humanos não podem deixar de «imitar». Subitamente tornou-se incompreensível. A rosa mística torna-se rosa apenas, as flores no seu multicolorido absorvem o azul da alma. Tendo o azul como uma espécie de vinco que divide a poesia em duas, e que pode impossibilitá-la, do lado de cá, no azul meramente atmosférico, está a matéria em luta com as formas, a brisa em luta com a voz antiga. Junto ao mar, essa matéria de forma onduladas e efémeras, que se fazem e desfazem, seria preciso encontrar uma nova voz, que surja não do seres do azul, cruéis por terem existido e também por não existirem. Verte-se aqui uma «lágrima» poética por essa perda, nem que fosse a última das lágrimas? Nada disso. Libertada a poesia das formas rígidas e das anti-formas dessas formas, em consonância com o ondular do mar, ela surge como prosa pura e dura. Prosa, dizem ambos em uníssono. Emudecidos os deuses, fechados os livros, a carne fica assediada pelos seus fantasmas almáticos e a matérias pelas formas. Estes espectros resistem enquanto «futuro» do existente, mesmo no meio-dia em que o sol está a pique e faz desaparecer todas as sombras. Matéria e fantasmas afrontam-se em luta dura, tal como a poesia e a prosa, sendo necessário lançar uma ponte sobre a lacuna que as separa. O tórrido sol do Verão dissipa os antigos nomes e as formas usadas libertando as forças que continham dentro de si, e que foram dissipadas pela história. É preciso recuperá-las, tais forças são a matéria que tem de ser salva poeticamente. O dever absoluto, a prosa que deverá salvar a antiga poesia do azul, a poesia desesperada com a falta do azul e, acima de tudo, a poesia em si. Eis o ponto de viragem, a consciência de que a última poesia, aquela desesperada pelo azul em falta, não é a última poesia, nem o fim dela, mas o seu começo… como prosa. Nesse momento de viragem, emudecida, nua, reflecte-se no espelho criado pela poesia desde a origem, dedilhando os cristais de matéria, o ónix que já não compreende, para recomeçar de novo. O azul e os deuses que, num breve momento de desespero, o poeta sentiu como falta podem ser supridos por ela, podem ser recriados, estes e outros, mas agora longe do inconsciente. Com a prosa não acaba a poesia, antes começa a poesia que se conhece absolutamente…

sábado, agosto 02, 2003

alegria

Para além do campo magnético da Terra, da sua luminosidade azul vista do espaço por máquinas ou quase-isso, fui encontrando outros campos formados por quanta de tristeza, quanta de raiva, quanta de amor ou quanta de alegria que a envolvem nas suas ondas invisíveis. Cada um destes campos é constituído por actos ou palavras ou gestos... tristes, raivosos ou alegres. Trata-se de uma economia puramente quantitativa, nada tendo de místico. Aumenta-se por se ter acrescentado uma minimalidade, e diminui-se de um lado por se ter aumentado do outro. Eis uma física de vasos comunicantes, em que tudo flúi em contra-sentido. Prometi a mim mesmo nada fazer que diminua a alegria, mas às vezes falha-se, sei-o bem. Porquê? É uma questão de veículos que apanhámos ou em que fomos apanhados. Às vezes entramos numa espécie de space shuttle de que não conseguimos sair, sem nos despenharmos, e somos obrigados a seguir viagem, embora tudo aquilo em que acreditamos se oponha ao destino, ao caminho e ao veículo. Pouco mais resta, nestas ocasiões, como dizia Pessoa, do que «assobiar baixinho vagos cantos», murmúrios que ao longe podem parecer resmungos, à espera de … poder sair. (resposta a TS).

blogando (18)
Leitores amáveis tem provado que o FLIP ajuda muito, mas não faz milagres na correcção ortográfica ( e mesmo nenhuns na correcção das ideias). O RAE está aberto a sugestões tanto sobre a ortografia como no resto. Se pudesse teria um revisor para a ortografia e outro para as ideias.

fogo
Os incêndios ateados pela televisão fizeram-me retornar a uma experiência arcaica que me marcou profundamente, a de uma pré-história sonhada e da qual extraí uma metafísica inconsciente que me marcou mais do que toda a filosofia. Estou a pensar na Guerra do Fogo, um livro de Rosny-Aîné que li quando tinha 12 anos. Tudo estava centrado na morte do fogo que implicava uma regressão inevitável à cristalização glacial. Como me identifiquei com Naoh o guerreiro, um Prometeu antes de qualquer Grécia, que partiu à conquista do segredo do fogo para a devolver à sua tribo, a dos Oulhamr. Naoh estava fascinado pelo fogo que se assemelhava a um animal fantástico: «Tal como as feras o fogo precisa de uma presa; alimenta-se dos ramos, das ervas secas, de gordura; cada fogo nasce de outros fogos, cada fogo pode morrer. Mas a estatura de um fogo é ilimitada, e por outro lado, ele pode ser infinitamente dividido; cada pedaço pode viver». Essa vida quase metafísica é redescoberta muitos anos depois por Ponge que detecta no curso do fogo a marcha errante dos animais. E de facto, quando o fogo se desencadeia os animais zizagueiam mimetizando os caminhos do fogo, se não é o fogo que na sua quase vida persegue os animais em fim de vida. A vitória de Naoh só se torna nítida em 1911, quando o romance de Aîné é publicado, e segue o seu curso nas leituras infantis que vagueiam num país onde apenas existe gelo e fogo absolutos, tribos e heróis. Dessa memória emerge o segredo do fogo, que é o segredo de todos os segredos: O fogo é perecível, também ele pode morrer. O fogo em 1911 tinha a forma da electricidade que tudo ia penetrar. O fim do fogo é para nós o fim da electricidade. Com o fim desta recomeça a pré-história? Naoh partirá de novo em busca do fogo? E haverá ainda quem trema de emoção acompanhando a sua busca por entre a floresta de letras?

coração
A estrutura milenar da tragédia foi sofrendo tranformações peculiares. Na tragédia tudo dependia do seu «pico» a que os gregos chamavam o acmé, momento alto da história, onde tudo se encaminha para o desenlace da «complicação» criada por um acto excessivo, como o de prometeu roubando o fogo, ou Édipo incestuoso. O policial que desde Poe caracteriza a tragédia sem trágico da «modernidade» repetiu à saciedade essa estrutura. Sempre «crime» e «castigo», com o seu «pico» no meio, cuja pendente anuncia já a solução. Entretanto já tudo foi experimentado sobre tal pico, sendo possível nem chegar a haver pico, ou de deste existir sem solução, tudo sendo demasiado misterioso para caber na estrutura da tragédia. Beckett levou ao extremo esta dissolução. O inverso desta descompresão da tragédia encontar-se na telenovela que vive de um acmé infinitamente estendido na linha do tempo, diferindo a «resolução» tanto quanto possível. A telenovela ideal nunca teria fim, e sabemos de algumas que duraram cerca de 20 anos. O resultado é uma infinidade de picos, nos quais subimos bruscamente para logo nos despenharmos, e isso num movimento incessante. Enorme e invisível montanha russa, que mal conseguimos representar. Ou melhor, que pode ser representada como um electrocardiograma, formado de inúmeros picos que, ao longe parecem formar uma linha quase contínua. O que não deixa de ser sugestivo. Afinal a telenovela dirige-se ao coração, dirige o coração, arrastando-a na montanha russa do seu movimento circular e interminável. Que o coração e a electricidade convirjam leva-me a dizer: «Não vás aonde te leva o coração».

roleta

As ideias são nítidas ou vagas? Surgem mínimas e imperiosas ou em catadupa nos «momentos de difuso despertar»? Diria que elas surgem contra as sensações vagas que precisam absolutamente de se deter numa ideia. Imaginemos um roleta com mais números que 36 e que estivesse sempre a rodar, dando a ver vagos traços de números que estão lá sem se verem bem devido ao movimento. Não é preciso que a roleta alguma vez pareterminando num número? Sucede o mesmo com as ideias, se bem que os seus contornos são menos definidos do que os algarismos que formam o número. Dizia Thomas Bernhard: «Um trabalho dá sempre origem a cem vezes, mil vezes mais trabalho: e este trabalho gigantesco não está evidentemente em proporção com a ideia inicial». Se o devaneio põe a roleta em movimento, é o trabalho que a pára. É originado pela ideia e prossegue perseguindo-a. Na roleta da vida cada um só tem direito a um lance… Ah! noutros tempos a ideia tinha o nome de «alma».

sexta-feira, agosto 01, 2003

blogando (17)
Todo o blog é concreto, mas uns mais do que outros.

acontecimentos

Os jornais vivem da ilusão de que há muitas coisas a acontecer, que há muitos acontecimentos. Nos factos a coisa é diversa, há poucos acontecimentos ou nenhuns. Para um cristão só contava um acontecimento, o do juízo final, para os modernos o fim da dialéctica da servidão. Nos os pós-modernos o acontecimento foi o fim do desejo que aconteça algo de decisivo. Sendo os acontecimentos tão raros, como explicar tanta notícia? Algumas são indícios da vinda do acontecimento terminante, a grande maioria são a dissipação de todo o acontecer, outras ainda são o reflexo apavorado do que está para vir. Todas, em si mesmas, não são nada… .

arrepios
Entre o fio da navalha e o frio da navalha estiveram os arrepios da carne no momento antes do corte. A seguir a temperatura aumenta.

marca
Chegou ontem aos Açores o navio «Esmeralda» que servira no tempo da ditadura chilena, faz 30 anos, de lugar de tortura. Surgiram de imediato protestos , enquanto o comandante se mostrava surpreso. Já não havia tortura nesse navio que nada distinguia de um outro qualquer. Senti-me do lado dos que protestavam, mas por outras razões. Um pouco como Paul Celan se interrogava sobre o silêncio de Deus na altura da shoa, também é inquietante que o navio não se tenha revoltado. As imagens dos corpos arqueados, os gritos de dor marcaram-no para sempre. Uma técnica diferente talvez ainda pudesse extrair os gritos das matérias que o formam, dando testemunho de algo que se perdeu nos porões do navio. Mas a essa marca não se apaga nunca, porque está inscrita na memória da dor que não perdoa a indiferença dos materiais, nem o silêncio dos deuses, e que torna todas as justificações absurdas. Teria sido melhor ter destruído este navio? Mas ele já foi destruído… há trinta anos.

indícios

Ler será uma arte? Sempre assim foi, e se deixou de sê-lo é porque algo mudou sem termos tido consciência disso. Leu-se muito antes de haver letras e livros, por necessidade imperativa. O caçador que lia os sinais da vítima, a vítima que estava atenta ao mínimo indício de perigo, todos liam, por razões diferentes. Aquele com mais arte sobrevivia. Desaparecida a lógica inexorável da predação outras leituras foram surgindo. As do oráculo de Delfos, os oniromantes egípcios, as cartomantes, os que lêem as folhas de chá nas cerimónias japonesas. Tudo artes da leitura antes das letras, em tempos mais violentos. As próprias letras estiveram desde o início misturadas com o sangue, implicando astúcias várias. Toda a escrita que não fosse do Estado continha uma outra dentro dela. Sabe-se como Leo Strauss radicalizou a escrita pré-moderna a partir desta escrita subreptícia. A segunda escrita, cifrada na primeira, impunha exigências fortes à leitura. Uma das razões do desaparecimento da arte de ler tem a ver com o fim da «semiótica de sangue», para usar uma frase de Nietzsche. Sem risco nem hermetismo tudo se resume a receber as letras. Desaparece a arte de ler quando desaparece um certo perigo, Mas existe perigo em tal desaparecimento. Como praticar essa arte, nas novas condições, que todos quisemos? É ela ainda possível? (resposta à Charlotte)

quinta-feira, julho 31, 2003

adulto
É a infância que nos salva, restituindo-nos os seres alegres que uma vez fomos. Que a alegria por vezes esteja esteja toda no passado nada diz contra ela. Ser adulto é insuportável, como me dei conta bem cedo. Em Brecht, que sempre considerei, lado a lado com Sena, um dos mais amargosos homens que existiram, reencontrei a razão disso. Vem no poema Tempos Difíceis: «De pé no meu gabinete/vejo no outro lado a janela do jardim a mata de saúco/ e reconheço nela algo vermelho e algo negro,/ e recordo-me subitamente do saúco da minha infância em Ausburg./ Durante um minuto/ penso bem seriamente se devo ir até à mesa/ apanhar os meus óculos para ver/ ainda as bagas negras sobre os ramos vermelhos». . Que esforço imenso é preciso para voltar atrás, à infância, abandonando a triste mesa de trabalho onde ataca o mundo e a inimizade que nele campeia. E que, infelizmente, acrescenta. Projectos de guerra, polemos contra tudo e contra todos, ficam em suspenso quando o olhar míope de Brecht entrevê na mata, ao longe, a árvore que maravilhou a sua infância. Será possível, como desejariam alguns místicos, voltar atrás, à infância? Redescobri-la? Brecht sabe que não, que tudo parecerá demasiado banal, que mais vale deixar de lado os óculos, e ver com outros olhos essa infância que nunca existiu. É ainda a mesma árvore, mas mais pequena, menos colorida, menos mágica. A árvore nebulosamente tinha criado raízes na memória da infância, obrigando Brect a interromper o trabalho,pondo de lado os óculos, ir até á janela. Passado o abalo, Brecht senta-se à mesa, põe os óculos ... e a guerra continua.

Sade
... o caso do infeliz de Sade. Terá havido alguma vez um homem com tanta vontade de viver, e a quem tivesse sido tão negada? E como ele soube resistir. Veio-me esta ideia ao ler que na margem num dos seus manuscritos, Os Infortúnios da Virtude, estava escrito: «Os meus olhos fizeram-me sofrer muito/complicaram-me muito a vida quando escrevi isto». Publicado o livro esta frase desaparece e podemos imaginar as infinitas frases que murmurava, os sonhos que embalava, os passos em volta da cela. Toda a obra, qualquer objecto, dão a ver uma ínfima parte do que foi usado na sua produção. Mas a quem se dirige esta frase escrita ao lado do escrito que, este sim, ia permanecer? Sabe-se que às vezes, enquanto se espera que a boa frase venha, se vão escrevendo outras coisas, um truque para apanhar a frase distraída, mas... Nada disso aqui. Só pode ter por destino aqueles que o procuravam, que o amavam, e que ainda não tinham nascido.

quarta-feira, julho 30, 2003

ler
A leitura é uma arte que foi sendo aviltada a pontos de se ter tornado num momento da escrita ou da vida. Trata-se de um movimento imparável que fez dizer a Delacroix que Velazques era um «pintor para pintores» ou a Erza Pound defender uma «poesia de poetas». Tudo indica que foi a tipografia e, depois, a tipografia digital dos word processings que facilitou tal resultado. Está a dissipar-se a antiga incoincidência entre a leitura e a escrita, que nios fazia admirar pessoas como Joubert que mal escreveu uma linha mas que ainda é recordado. Tal incoincidência é fundamental, pois contam-se pelas mãos dos dedos aqueles que foram bons leitores e bons escritores. De certo modo todo o bom escritor é obrigado a ser um mau leitor. Para o desaparecimento desta antiga arte, em que pontificaram adivinhos e mânticos, e á qual devo sensações únicas, talvez a razão principal tenha a ver com uma certa materialidade mal entendida que dá a prioridade a objectos palpáveis, e vendáveis. É que a arte da leitura tem apenas a materialidade da Psykê e para esta não há lugar nas prateleiras dos hipermercados.

blogando (16)
Conto-me entre os leitores da poesia de Pedro Mexia , que li sem nunca me pôr á procura das suas influências. Parafraseando Nietzsche, é uma questão de pudor não andar sempre a levantar as saias das «coisas». Quando me decidi a blogar, por razões que não têm a ver com o blog, mas com uma ligeira «crise» que me afastou de trabalhos que necessitassem de mais de 15 ou 20 linhas, saudei-o por mail e a mais 2 ou 3 bloguistas eminentes, que conhecia pessoalmente. Nenhum me respondeu nem deu as boas vindas, incluíndo este distinto bloguista. Surpreendeu-me um pouco esta reacção, mas segui o meu caminho. Não precisava de acolhimento num espaço que é de todos. Percebo agora que fui confundido com um tal «Professor Deleuze», ao que parece pai e paternal. Tudo bem, mas qual a razão do link do RAE neste post?


arquétipos
Para o nihilismo o que primeiro desapareceu foram os «arquétipos», os quais não passam de «imagens» mais essenciais por se terem conseguido impôr historiamente, por razões nem sempre confessáveis. Seria o caso de Deus, da «verdade», etc., de tudo aquilo que se coloca no início para dar precisão aos fins. Na verdade não chegaram a desaparecer, antes se perderam no meio de outras imagens, e de mais uma infinidade de objectos. Uma boa imagem disso é-nos dada ironicamente pelos Salteadores da Arca Perdida de Spielberg. Depois de enormes aventuras para descobrir a «arca», acabando assim com um segredo milenar, quando se é preciso escondê-la novamente, acaba por ser num armazém onde inumeráveis outras caixas estavam depositadas. A arca não desaparece, tal como os arquétipos, mas fica perdida para sempre.

blogando (15)
Depois de tanto metabloguing li no abrupto algo que me tocou. Escrever á noite, sem sono e sem esperança, para alguém que nunca veremos frente a frente, mas apenas para essa pessoa, é toda a esperança que resta de que a romãntica «conversa da humanidade consigo mesma» ainda tenha sentido.

riverrun

Muitos lamentam-se pelo facto das imagens se terem indisciplinado, errando caoticamente por todo o lado. A Internet seria o melhor sinal dessa indisciplina. Por mim. não vejo nenhum dramatismo neste neste rio de imagens. Estivemos já nesta situação num outro momento, em que Heraclito, o filósofo-chorão, como diziam os antigos confundindo o rio com as lágrimas, afirmara que «não se pode entrar duas vezes no mesmo rio». Perder o pé, mesmo na margem, eis o que parecia inquietante. Mas no dito de Heraclito estavam em génese as «palavras» para dar conta desse espanto inicial, e que acabaria por ocultá-lo. É toda a nossa metafísica e a própria teologia que são herdeiras desse ocultamente e o óleo que lubrifica o actual «rio das imagens». Pouco importa se foram outros, por exemplo Platão e Aristóteles, que cunharam as «categorias» com que pudémos recobrar alguma frieza. Essa vontade de domínio já estava implícita no enigma heraclitiano, que dirá ainda: «No mesmo rio entramos e não entramos; somos e não somos». Aparente obscuridade que se remove se pensarmos que somente na palavra «rio» poderíamos entrar e sair à vontade, mas não nas ondas deste rio, o da minha terra ou o da aldeia de Ricardo Reis. Se as águas do rio nunca eram as mesmas, a palavra “rio” esta era sempre a mesma. Quase se diria que tais palavras eram as “margens” do rio heraclitiano que, essas sim, estavam lá, paradas, com o olhar sonhador do sábio postado nelas. Rapidamente se dará o passo que leva do devir dos fenómenos à firmeza das ideias” e, secretamente, a transformação do pensamento em “margem” segura por onde se canaliza todo o “devir”, origem de todo o cálculo e de toda a medida. À primeira vista não existem grandes diferenças entre o rio que Heraclito via transcorrer e a televisão, a rádio ou as «redes» por onde flúem imagens e sons, que se dirigem aos confins do universo em busca de não se sabe bem o quê. E o nosso «rio» nem é menos límpido que o rio antigo. É certo que nele bóiam dejectos da história, restos de categorias, teorias em pedaços, narrativas sem nexo, mas também embalagens plásticas e borracha imprestável. Mas no rio grego boiavam também pedaços de mitos e ícones quebrados dos deuses, gritos de guerra e o sangue dos sacrifícios animais. Com uma diferença. A terra firme e as suas margens, toda a firmeza que possa existir, onde apesar de tudo Heraclito firmava os pés e em que se acabou por firmar toda a metafísica, está agora no meio do «rio», está arrastada por ele, fragmento entre outros fragmentos que o movimento arrasta atrás de si. Tudo arrastado por um «vórtice» cujo motor é a técnica, o verdadeiro Maelstrom da nossa época. Antes o rio fluía, mas a Terra não. Agora a terra parece liquefazer-se, e desaparecem as margens onde nos quedávamos melancolicamente a olhar ou a pensar. O rio heraclitiano voltou a correr. Riverrun diz James Joyce. Na luminusidade ao azul eléctrico pressente-se um reflexo da obscuridade heraclitiana, que nos chama para um recomeço.

viragem
As ideias surgem, não no sonho, mas quando se está ao trabalho. Elas são mesmo o sonho do trabalho, aparecendo como sensações estranhas, para logo desaparecerem, aparentemente sem deixarem traços. Mas no seu ir e vir criam uma ritmo que se desconhece. Até que, subitamente, se tornam nítidas e imperiosas. Um pouco como o ritmo milenar da lua se foi inscrevendo no sangue dos animais saídos do mar até que o coração os contraria com os seus ritmos lentos ou alucinados. Quando o ritmo ganha forma é o momento de viragem. A partir aí a ideia começa a perder força.

terça-feira, julho 29, 2003

escuridão
Impede-se o desconjuntamento do «real» através de uma espécie de «rede invisível" de Hefesto que mantém tudo unido. As formas históricas onde isso se tornou visível ficaram submergifas por regras, leis e normas de todo o género. A elas um cínico prefere sempre a polícia. De facto é da electricidade que tudo depende, como a prórpia história vogasse à tona do rio-eléctrico. Daí a enorme inquietação com um black out generalziado, como se da sombra que a electricidade dissipou pudessem sair uma série de forças estranhas a que, nas situações normais, nos entretemos a chamar de monstros. Mas não é preciso ir tão longe. As irmãs Papin, as duas criadas francesas que assassinaram e esquartejaram a patroa, de que Genet extorquiu uma peça, Les Bonnes e Lacan a sua tese sobre a «paranóia», lançaram-se ao acto depois de um corte de electricidade. O que será que elas viram na escuridão que as aterrorizou?

mecânica
Sempre me impressionou a semelhança entre o ready-made de Marcel Duchamp intitulado «Roda de Bicicleta» e a roda de fiar nas Hilanderas de Velazques, um dos desses quadros que divide a pintura em duas. Não é possével saber se a «roda» é uma citação oculta de Duchamp, embora isso não seja improvável. Pouca importa esta questão, interessa-me mais a maneira como subterraneamente comunicam. É preciso por isso pormo-nos à escuta do ruído provocado pela junção das duas iamgens. Sabe-se que Velazques apresentava á sua maneira barroca o trabalho humilde das artesãs, mas também a fábula de Aracné, a qual na sua disputa com Atenas sobre quem produziria a mais bela tapeçaria, foi transformada em aranha, como castigo da sua arrogância. Veja-se de novo a roda de Duchamp tendo como pano de fundo a ligação directa estabelecida por Velazques entre o tecer do fio pelas operárias e o aparecimento da imagem na tapeçaria. Tudo trabalho da linha, de um fio que se complica pelas cores e as voltas até que, pousada nos fios, fazendo-os desaparecer tal como a leitura faz desaparecer as letras, a beleza surge repentinamente. Toda a transfiguração do real tem início no humilde trabalho do tecer e entretecer o fio. Não há beleza sem essa humildade. Muitos anos volvidos Duchamp expõe uma roda de bicicleta, desinserindo-a do objecto a que pertencia, e definitivamente separada do trabalho que o ciclista executa e que as rodas desenvolvem. Ao moverem-se as rodas desenham um «fio», uma linha, na estrada, traço contínuo invisível, que depende das forças e da habilidade do ciclista e das acidentalidades da estrada. Tal como em Velazques a questão da linha é prioritária. Sabe-se, aliás, que Duchamp se preocupava, e muito, com o trabalho da linha. Subitamente damo-nos conta de um abismo entre as duas imagens. No espanhol a mecânica dependia estritamente do poético, enquanto que em Duchamp o poético aparece em conflito com uma mecânica que se escapou às linhas que a enredavam. A forma poética de apresentar isto? Uma roda que infatigavelmente se movimenta em círculo, abolindo toda a explosão que a linha contém, e a paisagem que produz ao desenhar-se e apagar-se no solo. A linha ainda não desapareceu só que agora coincide inteiramente com o perimetro da roda. Eis a máquina celibatária nas suas origens...

segunda-feira, julho 28, 2003

ligações
Aquilo a que se chama o artificial é o efeito de ligações que articulam e separam tudo o que existe no "quadro" de uma certa “figura”. Na Idade Média a figura de Deus, que estruturava todas as ligações. Não se trata apenas de ligações entre humanos, mas também com os objectos, as imagens e as palavras. É todo o regime secreto da propriedade que está aqui em causa. Marx teve nítida consciência deste problema, sustentando que, na modernidade, «todas as relações fixas e cristalizadas … dissolvem-se, e todas aquelas formadas de novo se tornam antiquadas antes de ossificarem. … Finalmente os homens são forçados a encarar com a sobriedade dos sentidos as suas condições reais de vida e as suas relações com os seus semelhantes». Frase fantástica, mas na qual estão em jogo duas coisas bem distintas. Em primeiro lugar, que as ligações tendem para a cristalização através de conceitos, imagens e figuras que as ocultam e dissimulam. O Senhor e o Servo apesar de serem definidos pela relação que os liga são, figurativamente, “senhores” e “servos”. Individuação catastrófica: uns sempre "senhores" outros eternamente "servos", Marx sublinha que, com a modernidade, dissolvem-se as ligações existentes através do esfumar das figuras que as constituiam como tais. Este momento é essencial, permitindo verificar a efemeridade de todas as ligações, mesmo quando duram milenarmente. Mas já é um outra coisa dizer que, desaparecidos os “véus” e as “ilusões” que recobrem todas as ligações, se atinge o “real”. O real sem mais seria o fim de todo o artifício e do todo o artificial, que são o veículo que nos impede de nos fundirmos com os «elementos». Seria viver na pura intensidade, sem individuação. Ora, se toda a individuação é ilusória nem por isso é menos necessária. De facto, estão sempre a emergir novas ligações e estas estão sempre a originar figuras que as estabilizam e que são capturáveis e programáveis, Se não chegam a «ossificar», como diz Marx, não quer dizer que desapareçam mas que têm uma duração mínima. Essa minimalidade torna tudo mais leve, aquilo que predomina é a velocidade, ou a dinâmica, e o pensamento não pode alhear-se desta experiência. Mesmo quando a velocidade do humano começa a misturar-se com a velocidade da luz.

blogando (14)

Faz parte do livro de estilo de um certo bloguismo a crítica dos medíocres, sempre invejosos do "natural" sucesso daqueles que têm "qualidades". E que se mede pelas citações em rodapé ou pelo sitemeter. Eis uma guerra de manjerico e manjerona que desconhece o básico: a mediocridade denuncia-se a si própria, sem precisar de ajuda, e é prova de mediocridade perder o tempo à sua procura e, mais ainda, a denunciá-la.

Seja como for, diga-se que:
1) todas as espécies têm direito à vida (regra anti-darwiniana básica);
2) aqueles que "têm qualidades", perdão, "qualidade" (forma modesta de se sentir "génio") precisam deles para viverem contentes de si, sendo um contra-senso acabar com eles (regra da piedade bem aplicada);
3) além dos entes "cheios de qualidades" e dos "medíocres" existe mais uma infinidade de tipos (regra que se mete pelos olhos).

Conclusão: os auto-denominados donos do blogo andam jumpies.

precisão
Estava a escrever um endereço na rede e não cheguei. Voltou-me a impressionar a precisão absoluta do digital. Uma vírgula em vez de um ponto, uma letra a mais ou a menos, e o desacerto é total. Acertando-se, a ligação é perfeita, a localização sem falhas. Admirável certeza, que tem o seu reverso na ideia de que a precisão estaria a aumentar à custa do impreciso, do contingente, havendo um combate a travar aqui. Alguns consolam-se com a ideia de que o “real” é necessariamente impreciso e que escapa sempre por entre as malhas que a rede tece. Já era esta a opinião de Hobbes. Na verdade, o que mudou foi a natureza da “precisão” que não era menos absoluta quando a malha era teológica e que as falhas no “real” mais reforçavam. Agora a precisão é basicamente matemática. A sua malha vai-se tornando tão apertada, basta ver como o segundo hoje é inútil para medir a velocidade de um corredor de 100 metros, que o “real” em vez de ficar enredado nela, como antigamente, lhe serve de base. A malha fica tão apertada que se assemelha a uma película que tudo recobre. Daí que, à mínima falha, da electricidade, por exemplo, ressurja como catástrofe, como puro “acidente” .

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