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domingo, julho 27, 2003

Nostalgia
A razão porque as imagens técnicas pouco valem isoladas tornou-se-me clara quando vi o vídeo de Maria Lusitano Santos intitulado “Nostalgia” que está em exibição no CAV de Coimbra. A estratégia é simples. Parte de uma série de vídeos caseiros antigos de pessoas que estiveram Moçambique nos anos 60 e 70 e coze-os através uma narrativa ingénua de um personagem que nunca tendo existido pode ter estado em África nesses anos. A consciência revelada no discurso em off mantem-se estranhamente ao nível dessas imagens, como se o tempo não tivesse passado, a guerra não tivesse terminado ou não tivesse ocorrido. O efeito imediato é o de uma nostagia que ressuma por todo o lado, escorrendo como se fosse algo viscoso, mas inapelável. Tudo o mais se apagou. Nem se chega a colocar o facto de essas imagens de festas serem pequenos intervalos numa vida bem mais dura, com a guerra e a pobreza dominando. Mas é justamente tal ausência que exige que se vá além das imagens e que torna a nostalgia algo politicamente perigoso. Sensação que se agrava quando nos damos conta de este efeito é originado pela visão das imagens técnicas enquanto mera mnemotécncia, como registo de algo que alguma vez foi. Não é nada disso, tais imagens apelam inevitavelmente a uma memória que, se torna nostálgica ao fundir-se com a restitução absoluta da técnica. É que não existe restituição absoluta. Sobra sempre algo de irredutível, que não foi registado e nem é registável. E como é potente a nostalgia que faz com que todas estas questões se tornem inúteis…

sábado, julho 26, 2003

caixa
As categorias são ferramentas para trabalhar a existência. A enorme vantagem de um certo nihilismo consistiu em libertá-las dos programas que impediam as suas ambiguidades e deambulações. Por exemplo, uma teoria do objecto tende a controlar as bizarrias que as coisas originam. A mesa dançante de o Capital, os óculos de Pessoa, o urinol de Duchamp, entre muitos outros, mostram que e objectos resistem. No caso das categorias pouco mais esperança parece haver do que serem mal-usados ou mal-entendidas, como diz a famosa tese do misunderstanding de Bloom. Quando todas elas sofrem uma primeira dispersão já não é possível reuni-las numa única caixa, e muito menos compartilhá-la. Tudo pode servir de «ferramenta» A «caixa» é ainda uma ilusão de coerência, pois a ter sentido acaba por se confundir com a totalidade da existência. Há quanto muito diferenças de nível. Na falta do martelo usa-se uma pedra. Mas ninguém sabe se é preciso o martelo, se no momento em que falta estará uma pedra à mão, se não terá que se usar o macaco do carro, etc. Claro que o macaco não é um martelo... nem um macaco. Tudo desliza imperceptivelmente. Os que pensam poder compartilhar a caixa são teóricos da «caixa», sempre demasiado lentos quando a ocasião irrompe. Aqueles que, nesse preciso instante, estiverem juntos encontrarão as ferramentas de que estão precisados. Ou não...

copyright
Sendo a língua propriedade comum é sinal de arrogância querer apropriar-se privadamente das palavras. Quem escreva já terá alguma vez sentido o desassossego de usar as palavras que a ninguém pertencem, enredando-as numa narrativa ou num texto. Alguns tentaram mesmo forjar novas palavras, mas esta era mais uma ilusão. As «novas» palavras são variações das palavras comuns, e logo que expressas caiem no dicionário que é o cadastro daquilo que pertence a todos. Outros procuraram purificar as «palavras da tribo» de maneira a evitar o seu desgaste e comércio excessivo, mas a pureza vive apredes meias com a impureza. A única justificação poderia estar na maneira como elas são associadas pelo estilo ou a afecção de quem escreve, i.e., se apropriou delas. Escreve-se sempre num instante qualquer, com uma certa luz e ouvindo algum ruído ou música, e seria isso que teria que perpasasr no comum, sem o lesar. Tudo muito certo, mas a sensação de que há aí algo de injustificável não desaparece. Se não houvesse o copyright as coisas seriam diferentes…

veículo
O romantismo é inseparável do duplo, de desdobramentos de todo o tipo. O fantástico parecia ir contra os monismos da razão. Gémeos, encontros estranhos, fantasmas, reflexos no espelho, sombras, tudo florilégios do duplo. São efeitos de imagem que ganhou vida própria, confrontando-se com os «corpos» e as coisas num ciclo interminável. Esse confronto só é possível porque «imagens» se separaram dos «corpos». É por isso mesmo que entram em choque. Esta cristalização do duplo é sinal de uma crise radical na textura «metafísica» das coisas Desde os primórdios que tudo vinha pelo dois, implicando uma divisão que tudo marcava invisivelmente. É que os objectos e os corpos foram sempre veiculações de um movimento que divergia para melhor convergir. Essa era a mecânica da economia da salvação. Assim, na Idade Média uma charrua era um instrumento que vergava o camponês à terra, mas também um veículo que o levava para a salvação. uma catedral gótica era um edifício, mas também uma instanciação da presença divina. Hoje só vemos charruas e edifícios. Tal visão é o melhor sinal de uma falta no «real», que se nos apresenta como inteiro quando é o resultado de uma subtracção. Mais do que uma «evaporação do ideal», para usar um dito de Mallarmé, está em causa a sua «precipitação» na terra, ganhando a materialidade que lhes é conferida pela literatura, mas também pala fotografia ou o cinema.

sexta-feira, julho 25, 2003

bonecreiros
Seria possível uma marioneta apenas com um fio, mas que fosse tão graciosas como as marionetas com todos os fios, sem nenhum a mais nem a menos? Foi assim nos antigos gregos, um fio apenas para a vida, e as Parcas, a cortá-lo, ou não. Inveja metafísica a dos maus bonecreiros de hoje, que gostariam também de um único fio, o da moral, por exemplo, sempre convencidos de que há fios a mais. Gostariam de um fio único, para mimarem ridiculamente a Parca antiga e o seu poder mítico sobre a vida. Só que o fio da vida é feito de muitos fios, sempre inumeráveis. Conhecer-se a si próprio significa reconhecer os fios certos e incertos. Arriscar aí. Porque é de um risco que se trata, e só a falta de habilidade ou a vontade de poder convence alguns bonecreiros de que é preciso contar bem os fios, calcular bem os gestos, determinar as figuras e os arabescos da marioneta humana. O que se deve se calhar à preocupação de que alguns fios estejam noutras mãos, que lhes escapem. Controlar todos os fios, eis o desejo milenar. A sua realização perversa ocorre quando se impõe a ideia de que somos livres, sem fios. É este o nosso momento. O contrato vigora e agora os movimentos tornam-se brownianos, erráticos em vez de livres, sem radiância. A marioneta, no meio disto tudo, já não sabe que fazer, mais não lhe restando do que segurar ela própria os fios. Não é o que está a ocorrer com os robots, com os cyborgs? Mal ou bem está a acabar a longa história dos maus bonecreiros.

blogando (13)
Um blog é o uso de um dispositivo que reune técnicas pré-existentes, podendo ser utilizado por qualquer indivíduo, ou é a escrita de um grupo relativamente coerente, mas fechado. Simpatizo mais com a segunda possibilidade, embora ache que um blog só é verdadeiramente pertinente quando totalmente aberto, fornecendo as passwords logo no cabeçalho, para quem quiser escrever (e não intervir ou comentar..). Esse não é o meu caso, e é por isso que duvido deste blog. E de muitos outros.

entropia
A entropia é o embaixador da natureza no seio da cultura.

soberania


Fui a Pedras del Rey no inverno. Tudo estava fechado, mesmo as esplanadas que no Verão formigam de gente. O vento soprava forte e sobre o chão de tijoleira da esplanada havía montículos de areia, uma película de areia, caprichosamente dispersa, que desenhava linhas de força irregulares. Dei-me conta de que sem se afrontar a entropia a natureza tudo recobrirá. E a natureza é a morte do humano. Lei universal e inevitável. Que se detecta em Velázquez, na enorme melancolia com que os diversos retratos do Rei mostram o seu envelhecimento, a excessiva precaridade da soberania. Ou então, no caso de Las Meninas, como o Rei humano demasiado humano acabou por ficar aprisionado no «seu» palácio como uma aranha na «sua» teia. Desaparecido o soberano que tinha o globo numa mão e o ceptro na outra, e tudo parece desabar. Eis uma lei moderna por excelência. Será que a melancolia velazqueana anuncia um outro soberano? A areia que tudo vai cobrindo em Pedras del Rey, exige um novo soberano? Desertando as suas figuras históricas o soberano já só se encontra em alguns gestos, quando se orientam pela «liberdade livre» de que falava Rimbaud.

obsessão
De todos os lados chegam-nos indícios de uma crescente preocupação com o corpo, como se, por razões algo obscuras, o corpo se tenha tornado problemático, palco de incerteza ou fonte de inquietação. A isso não será alheio o facto de estar sob assédio, senão mesmo sitiado. Basta referir o aperfeiçoamento genético, o embelezamento cirúrgico, a ameaça de novas epidemias, como a Sida, a sua pulverização em imagens, as alucinotecnologias químicas, etc.. Seja como for, o investimento do «corpo» pela técnica não chega para explicar a sensação difusa de que o «corpo» está em crise. A situação é bem mais radical que o assédio do corpo físico pela técnica e os poderes actuais. O que entrou em crise foi o corpo «metafísico», enquanto categoria constitutiva da experiência ocidental, funcionando como a garantia última da irredutibilidade do «sujeito», da singularidade do «indivíduo». A formação desta categoria vem desde os gregos, pelo menos, caracterizando-se por uma divisão essencial - entre corpo e alma, antigamente, e entre corpo e consciência, nos modernos. A crise do corpo implica a crise dessa divisão metafísica, que incubava inevitavelmente na maneira como os modernos traduziram a alma como consciência. Daí a que esta última se tornasse num mero fenómeno neurofisiológico, foi um passo, dado alegremente por Damásios. Tornando-se num bloco orgânico a carne retorna com ferocidade. Como disse algures o coreógrafo e bailarino Bill T. Jones: «The body has a ferocious hunger, and it wants to do. It wants to be, and if you listen to those impulses, you'll find yourself moving your arms around, maybe skipping or rolling, and you'll understand something about your body». A possibilidade de que a arte possa responder a essa ferocidade é mínima, mas indispensável. Acima de tudo, agora, quando entra em crise a ilusão moderna de que somos proprietários do corpo. De facto, para os modernos o corpo era o modelo de toda a propriedade. Os proprietários tinham as suas empresas ou terras, o proletário o seu «corpo», mas todos eram proprietários. Por ilusória que fosse essa «propriedade» que a mais mínima doença desmentia, nessa construção jogava-se algo de essencial: impedir as intervenções directas sobre a carne, inevitáveis nos poderes antigos e que o «corpo próprio» estava encarregado de proteger. A diferença, agora, é que são os próprios «sujeitos» que desejam ardentemente tais intervenções, torturando-o pela ginásticas, as dietas, a cirúrgia estética, e tudo o mais. Perde sentido, este modo, o lamento de Walter Benjamin, para quem «o mais esquecido de tudo é o nosso corpo». Assediado por todo o lado, o corpo torna-se obsessivo, revelando-nos que só pode existir no esquecimento de si mesmo. Todo o drama está em que é impossível esquecermo-nos dele. É tal obsessão que é sinal de crise.

quinta-feira, julho 24, 2003

regra

Preocupa-nos o amigo ou a amada quando passam para o lado daqueles que vêm no sofrimento uma prova ontológica da existência, sua ou dos outros. Desagradavelmente o mundo tornou-se tão frio, as afecções já são todas de segunda ordem, reaquecidas pelo teatro ou a literatura, acima de tudo pelo cinema. Perante isto, como não acreditar que sofrer seja um sentimento originário? Um sentimento, ainda, por favor. Toda a religião partiu desta crença. Ontologia bem triste, tristeza da ontologia a que diz: «Sofro, logo existo». Um pouco pior, a que nos diz «existo, logo sofro». Ilusões, tudo réplicas do tal cavaleiro-da-triste-figura que combatia contra moinhos de vento pensando lutar contra gigantes. E o moinho seguia imperturbável a moer, as velas a girar ao sabor do vento. Dizer «sei que vou sofrer», «errei, e agora vou sofrer» é inumano, pois o sofrimento é apenas fraqueza, que não distingue ninguém, antes anula a parte de força e de intensidade que nos coube em sorte. E que teremos de restituir. Breve, breve. Lição do moinho, aceitar a sua errância no vento, ou desaparecer. Hoje são casinhas de arquitectos em férias, ou algo pior. Contra esta ilusão letal, uma outra memória: «É de certeza uma turva e triste superstição aquele que nos impede a alegria e o prazer. Porque seria mais apropriado eliminar a fome e a sede do que acabar com a meancolia? Esta é a minha regra» (Spinoza). Ainda palavras, palavras, e mais palavras. Certo, mas o humano, em cada um, nota-se pelas palavras que escolhe, pelas palavras por que foi escolhido.

tensão
Entre a poesia e os «poetas» existe uma tensão que se resolve, no presente, a favor dos poetas, no futuro a favor da poesia.

blogando (12)
Li algures um conselho para deletar blogs pouco conformes á blogosfera ou dos inconformados com ela, sabe-se lá porquê... Conselho a ponderar, mas por agora que baste o delenda blog ....

reflexos
Em alguns momentos toda a história se ilumina, permitindo retraçar processos que duraram milhares de anos e que ficam aquém de toda a inquirição possível. Isso é mais evidente quando se trata da mítica questão as origens. De facto, estamos sempre para lá da origem, o que torna impossível interrogá-la. Algumas imagens mais cruciais podem levar-nos ao ponto em que tudo começo, nem que seja imaginariamente. Vêm estas reflexões a propósito de um dos primeiros calótipos de Talbot, datado de 1840. Trata-se de árvores reflectidas na superfície de um lago em Lacock Bay, que inaugura um certo estilo de fotografia. Mas que nos permite ir bem mais longe. Tudo o que é humano se origina num desdobramento da natureza, que se desmultiplica numa série de imagens. A mais evidente é da superfície espelhada de um lago, onde emergem as imagens. Não se trata de simples imagens, mas de novos «objectos» com uma ontologia misteriosa. Esses reflexos existiam antes de haver humanos, e de certa maneira constituem toda a ordem do humano. Talbot falando da fotografia dizia que era um espelho com capacidade para fixar o que nele se reflecte. O que, talvez, explique, a esplêndida imagem do lago nos alvores da fotografia. Tudo está em fixar o fugidio, criando novos objectos e coisas, onde antes não havia nada. A fotografia ao surgir repetiu algo de mais originário, a divisão da natureza em si, originando uma profusão, essa espécie de luxo que artificializa a vida, mas também que a «artistiza» como diz Lezama Lima. Mas deu ainda a ver algo que tinha ficado oculto nas profundezas da pré-história, que tudo depende da «fixação». E permite-nos compreender algo fundamental: que antes de haver a fotografia outras máquinas fizeram esse trabalho de fixação. São elas o mito e, em geral, a poesia.

ferramentas
Michel Foucault disse algures que o seu trabalho podia ser descrito como criando ferramentas para uma «boîte à outils», uma «caixa de ferramentas». Sempre achei interessante esta frase, embora mal começasse a pensar nela fossem mais os problemas que originava dos que aqueles conseguia resolver. De facto, qual seria a estrutura dessa caixa? Como foi construída? E as teorias, elas próprias, também eram «ferramentas»? Quem poderia utilizar essas ferramentas? Que tipo de operário novo estava aí implicado? Perguntas que não têm resposta fácil, e se calhar o melhor é aceitar a metáfora e não inquirir mais longe. Isso pode ser confortável e até prudente, mas não funciona comigo. De facto, se é verdade que a história nos legou um bom número de teorias que continuam a combinar-se numa infinidade de outras, também não é menos certo que tudo pode servir de ferramenta. O que se deve ao mesmo fenómeno: a entrada em crise das visões da totalidade. Inevitável quando as «imagens do mundo» ficam submergidas pelo «mundo das imagens», dando-se uma espécie de catástrofe das teorias, que ficam reduzidas a fragmentos. Por exemplo, a noção de fetichismo ou de fantasmagoria de Marx é usável sem ter de se aceitar a sua visão da totalidade e a narrativa historicista que a suporta, o mesmo relativamente à alucinação em Freud ou à implosão em McLuhan. Por outro lado, ocorre o mesmo com as técnicas, as rotinas os modos de «saber-fazer». Sabemos bem que estamos todas na situação do McGiver, obrigados a usar tudo o que está à mão. Com uma diferença: não existe o argumentista que garante a repetição infindável do Happy End. Seja como, todos aqueles dados ao trabalho de mãos sabem que se pode martelar com um martelo, mas à falta dele pode ser um alicate ou uma pedra, até mesmo outro prego. Diria então que a caixa de ferramentas é formada pelos restos dessas catástrofes teóricas e práticas que fazem com que a teoria ou o martelo sejam uma e a emsma coisa. Percebe-se a dificuldade de muitos em aceitar esta situação. Mas quem tenha de agir pensadamente, ou pense através da materialidade do mundo, é obrigado a usar a «sua» caixa de ferramentas. Todos são, reconhecem-no ou não, operários de um novo tipo. Mas há operários e operários. Aqueles que estão de mãos à obra e têm a intuição suficiente para ir buscar a ferramenta certa na caixa que têm ao lado, e ao longo do trabalho vão desarrumando a caixa sem nunca perderem o sentido da ferramenta, indo com mão segura buscá-la, tacteando com certeza, sem precisar de olhar para ela. No fim do dia a caixa está toda desarrumada, e o servente de operário vai arrumar as ferramentas por espécies, tamanhos e funções, de modo a se poder continuar a trabalhar. Existem ainda outro tipo de operários que gastam o tempo a arrumar a caixa, são contra a desordem que baralha todas as ferramentas e criam sistemas para que o desarrumar seja controlado ou seja impossível. A caixa está bem arrumada... mas a obra não chega a começar. São operários... teóricos.

quarta-feira, julho 23, 2003

blogando (11)
Será que isto é um blog?

efémeros
Era característico do passado querer a eternidade das coisas. Mas quando elas são um veículo para o círculo do dinheiro têm de desaparecer tão depressa quanto possível. Atrás das coisas coisas vêm, e não é possível deixar que tudo se engolfe contra objectos «teimosos» e que não desaparecem. Inaceitáveis estas «barragens» de objectos. O segredo dos nossos objectos: tornaram-se tão mortais como os corpos, ao embutir-se-lhes uma obsolescência programada e cálculada ao milímetro. Todos eles aguardam o seu Roy Batty.

cifra
Antes via-se em cada coisa uma cifra do além, cuja relação se procurava decifrar, sempre numa certa falha. Era por isso que eram secretas. Depois libertaram-se as coisas de tais cifras, recuperando a sua «materialidade». rapidamente se descobre que isso é insuportável. Agora as cifras são tudo o que há, sendo as coisas um breve momento do cifrar. Nesta selva de cifras erramos todos...

princípio
No princípio era a imagem, que se fez voz, que se fez escrita. Quando a escrita se transformou em imagem o rumorejar das vozes tornou-se infernal.

queda
Marx referiu o facto enigmático da «dissolução de tudo o que é sólido». Cem anos passados está a acabar a própria distinção entre o que é sólido e o que é mole, destino fatal de todas as distinções. Presença e ausência, efémero e permanente, hard e soft, alto e baixo, tudo se mistura. Não é que estes milenares bastões com que tacteávamos o mundo tenham desaparecido. É a inumana velocidade da electricidade que tudo desfigura e deforma, como se estivessem a operar aqui as forças da pintura de um Bacon invisível. Tudo se precipita num meio informe, numa natureza mais incompreensível que toda a natureza existente até aqui, numa espécie de vórtice imensamente acelerado provocado pelo encontro da técnica e dos corpos, pela transfusão das paixões e da química, tudo misturando numa mescla que «foge para o cinzento», como ocorre com as cores quando atingem uma velocidade suficiente. A fadiga do metal estendeu-se ao tacto, que preguiçosamente já nada encontra a que se agarrar. O pensamento, agora sem amarras, cai em vertigens no centro desse vertiginoso meio para o qual nos precipitamos à velocidade da luz. Mas se a queda para a natureza é infinita, nunca cessaremos de cair, a não ser que caímos tão mais violentamente quanto mais nos agarrarmos à ilusória segurança da Terra ou da Casa. Talvez tudo dependa da arte de cair. Tudo isto exige um outro saber: dos tropismos, das inclinações, do clinamen. Enfim, se a situação actual faz de todos nós seres da queda, tenhamos alguma confiança no facto de que nem todos caiem da mesma maneira, nem à mesma velocidade. Há um abismo a franquear entre a queda do suicída, que se precipita do 7º andar, e a da bailarina que cai para se elevar melhor. Política da declinação, arte do arabesco, fatalidade.

beleza

Emily Dickinson disse um dia que «o único que resta do esplendor da beleza é o seu desvanecimento». Será a beleza um espelhismo desesperado da memória daquilo que um dia foi? Nada disso. É-nos dito que a beleza resta. Que só ela permanece no meio do desvanecimento, junto daquilo que devém e perece. A beleza é esplendor que permanece mesmo no que desaparece. Porque ela não desaparece, apenas as coisas onde pousou a perdem, e assim se perdem. Mas essas coisas têm de ser salvas também, porque a beleza sem elas é demasiado amarga. Não será que o esplendor da beleza fica nas coisas como o clarão de um lâmpada ainda fica na retina, depois da luz se ter apagado? Permanecendo um tempo, pequeno é certo, mas persistente, embora sem ligar-se já a nada? É isso que fica, um clarão de algo que resplandeceu excessivamente? Sendo demasiado pouco, bastaria para salvar as coisas. Contrariamente ao aparecimento da beleza, que é instantâneo, e está ou não está aí, o desaparecimento do seu esplendor é mais lento, só um pouco mais, deixando um traço da sua presença. E isso terá de bastar-nos. É que esse resplendor pode demorar uma vida inteira a apagar-se, ou toda uma época da história.

escândalo
A tristeza é um escândalo.

indizível
Alguns falam do indizível, do abismo que está por trás ou por baixo de tudo, mas o «índizível» é uma palavra que está no dicionário junto a muitas outras, bem arrumada e indexada, como sucede também com o «abismo». Por trás e por baixo de tudo está a terra. Todas as palavras têm a sua potência, a do abismo a de delir a língua, fazendo-a perder-se dentro de si mesma, em circuito fechado que nos descola da terra. Falar do indizível equivale a reconhecer confusamente que se está enleado nesse circuito, por culpa própria, aparentando ter-se chegado ao derradeiro limite. Toda a arte desmente isso, e mais ainda o próprio facto de se escrever ou de falar. Muita má poesia se fez com essas palavras, de que é preciso diminuir a sua potência histórica. Ligadas de outra maneira, por exemplo a outras palvras ou imagens, tudo se torna mais cristalino. Assim, «indizivelmente feliz» significa que no estado de felicidade realmente sentido, aqui e agora, é inútil continuar a falar ou a escrever. Momentaneamente atingiu-se um máximo, por pouco que dure; ou quando se escreve uma frase semelhante significa que se vai poupar o leitor de uma longa descrição, por desnecessária.

terça-feira, julho 22, 2003

prova
A prova que escrever e pensar são coisas distintas é que se pode escrever sem pensar.

pensar
Para pensar alguns precisam de condições muito especiais, para não serem incomodados pelas agitações da vida que os perturba na sua sublime ocupação de começarem a preparar-se-para-começar-a-pensar. É evidente que nunca pensarão seja o que for, pois falta-lhes a linguagem própria do pensar, que Mandelstam definia como «ruído do tempo».

relógio
Se um relógio avariado acerta sempre duas vezes, isso não implica que um relógio a funcionar acerte sempre. Saõ coisas distintas. Num caso temos o mundo a circundar o relógio, no outro o relógio a compassar o mundo à sua marcha.

pormenores
Todos os pormenores são sórdidos, por serem pormenores.

blogando (10)
Parece que vai haver hoje mais metabloguing na NTV. Não ver.

palavras



Victor Hugo disse algo bem curioso: «Ange est le seul mot de notre langue que ne peut s'user». Ao lê-lo dei-me conta de que ele estava a pôr o dedo numa ferida bem mais profunda de que aquela que proscrevia na poesia o uso da palavra «anjo». Estou a referir-me à hecatombe das «palavras» que ocorreu nos últimos dois séculos. Não estou a pensar apenas na linguagem reduzida às poucas milhrares de palavras do português basic da TV, nem no esquecimento geral de muitas palavras, que Camilo ainda usava à um século, e que se tornam uma patologia na escrita de Aquilino. Estou a referir-me à vida envergonhada de palavras como «deus», «morte», «verdade», «liberdade». Tiveram que ir para a sombra para não se desgastarem pelo uso. É de bom gosto também não usar aquelas que a época usa, ornamentos dos senhores do presente, um pouco por delicadeza, mas também para não andarmos em má companhia. De tão mal usadas, aqueles que delas gostamos, por uma memória longínqua, acabámos por colocá-las de reserva, para melhores tempos, ou se a situação é mesmo grave. Por exemplo, quando alguém é perseguido, logo nos vem a palavra «liberdade», e como tem força então!

blogando (9)
Qual é a a etiqueta do blo[g/c]o? Contrariamente ao que esperava depois de tanta metabloguismo nos jornais, é bem semelhante à do Banquete de Malthus. Os que já estão bem instalados á mesa, em alta grita de (auto)contentamente, vêem todos os que se aproximam como intrusos, que vieram sem convite. Como na rede todos estão convidados, não por eles, claro, que fiquem sossegados, e aproveitem as migalhas que caiem da mesa. Mas há diferenças que valem tudo. No meu caso os acenos simpáticos de Pedro Lomba, Rui Almeida, Nuno Centeio, António Jacinto,o que se denomina Statler, Ponto e Vígula, Américo de Sousa, e Ivan Nunes que com a sua generosidade proverbial foi o primeiro a acolher-me.

salto
Assaltaram-me os versos de Blake «Tyger! Tyger! Burning bright/In the forests of the night», de maneira diferente das outras vezes, retidos sempre na obscuridade que tudo envolve. A maneira como saltaram sobre mim, absolutamente inesperada, na floresta de Brocelândia da rede, onde me adentrei em boa companhia, dá-me uma chave para o entender. Olhos em fogo e noite escura opõem-se, como a imensidade ao pontual, como a desmesura à medida do poeta, que está dentro do bosque, sem luz, como outrora Dante perdido na selva oscura, mas já sem confiança deste nos caminhos. Sem mediação possível, porque que o essencial é sem preparação. Ir até ao extremo exige um veículo mais rápido que a velocidade da luz. Esse veículo é o tigre, não, é o tigre-tigre do poeta. Subitamente um fulgor de olhos, que o mínimo folhedo, até que mais rápido que o olhar o tigre salta. No momento em que cai sobre a vítima há uma luz breve e intensa que anula a noite, e também o pânico que a acompanhava. O salto tigre é igual ao irromper do sol que, por ter vindo, apaga todas as inquietações e nos leva ao outro dia… mas tudo isso fundido num pestanejar de tigre, num lampejar de frase.

blogando (8)
A diferença entre a blogosfera e a vida é que as estratégias de poder são as mesmas, mas o espaço é gratuito.

amiba
Um dia em África dei-me conta de que uma perturbação absurda me fazia passar de livro para livro, numa turbulência permanente. Comecei a sofrer de uma certa avidez que fazia com que nada contasse, que tudo se tornasse em obstáculo. Sofri como se sofre nesses anos, mas de repente veio-me uma imagem, que me ajudou a viver melhor desde então. A da amiba. Uma amiba só come o que lhe passa ao lado dos pseudópodes e que possa englobar. Uma partícula fantástica um mícron a mais já não existe para ela. Tornei-me adepto da «estratégia da amiba». É certo que é minúscula, mas é um bichito sábio. Como ela devemos de deixar comer o mundo, essa avidez é a fonte de todas as patologias. Dir-me-ão que a amiba não tem consciência ou alma ao contrário do homem. Desuse-se o microscópio que a aumenta o pontos de parecer um homem, e que a «alma» não fique abaixo da lição da amiba, que só vale porque ela é pequenina.

água
Sempre fugi do Sol que sou mais ser da água, do olhar fascinado da água. Por mais transparente não consegue apagar os traços dos Dilúvios, das Atlântidas submersas, dos drowned worlds sonhados por Ballard e que me apegaram para sempre a ele. Traços ou memórias de contos imemoriais, que vogam no Tâmega, o rio da minha Terra. Cada um teve o seu, se se teve a sorte de ter rio. No fundo, há terras sem rio e terras com rio. A água do rio tornou-se assustadora quando quando o vi o mar, pela primeira vez, aos sete anos, na Póvoa de Varzim. O rio é um braço de água enquanto o mar é o abraço da água. Percebo agora que toda a água comunica subterraneamente, ligando vida e morte. Os antigos faziam do Estígio uma caminho para a morte, mas que vinha da vida. Existe uma espécie de água interior, bem mais estranha do aquela a que chamamos lágrimas, e que é ela senão a imagem de uma pequena ou grande morte que elas arrastam, e que as arrasta, para a imensidão da água? Flow my tears, the policeman said, disse Philip K. Dick que o policia disse e eu digo o que ele disse, e neste fluxo de lágrimas de tinta, vem ainda a água, o que fica dela quando tudo o mais não conta. Que é um fluído, que flui. Tudo vogando, a água, as palavras da água e as suas imagens, e todas as imagens e todas as palavras. Tudo isso desliza no rio da minha terra que corre nos meandros do meu cérebro, que entronca nos Meandro do templo de Apolo e em ttudo o mais. Tudo se confunde ou se liga. Pedem-nos que não confundamos as fronteiras. Mas a água a todas dissolve.

segunda-feira, julho 21, 2003

pendências

película
Entre nós e o inorgânico intermediou sempre uma fina película, com muitos nomes: teologia, simbólico, cultura, outros ainda, muitos.... Ela fazia-nos incoincidir com a «natureza» e demorava a queda da vida para a morte, para o inorgânico, tornando-a infinita e eterna. Agora que tal película se está a esgaçar e se apresenta cheia de buracos, a queda torna-se brutal. Às vezes ouço o som do choque dos corpos que passam por esses «buracos» e se estatelam no solo.



queda
Despenhámo-nos. De onde caímos? De Deus, e agora descemos com velocidade crescente em direcção à terra, ao barro...



pára-quedas
Jogar com a queda é próprio do humano. O pára-quedas diminui-a por cima, no céu, mas a poesia diminuí-a por baixo, na terra.



voar
Sem poesia os corpos caiem sempre em linha recta, à procura do seu lugar natural, a morte. Mas há outras pendências, onde se desenham arabescos, onde se cai para cima, se chega a voar. São pendências impossíveis mas necessárias.



inclinação
Quando alguém cai sempre segundo a mesma pendência diz-se que tem uma «inclinação» forte... para a droga, o trabalho, ou a doença. Estamos a falar de dependentes, que se reclinaram sobre algo demasiado frágil... eles próprios.



decair
A vida precipita-se vertiginosamente para a sua acmé, exigindo uma decisão em que todo o passado se funde com o presente e o futuro. Se essa decisão falha a ocasião, a acmé revela-se como começo da decadência....



decadente
Decadente é aquele que não sabe que cai....



suspirar
Fumar é, para alguns, uma outra forma de suspirar.

contenção
Considero prova de contenção recomendável não querer ser artista. Deve evitar-se sê-lo tanto quanto possível e até onde for possível. Nessa luta, inesperadamente, um ou outro serão derrotados. Mas este é um daqueles casos em que a derrota equivale a uma bela vitória.

mística
Devo alguns dos momentos «místicos» da minha meninice às leituras de Poe. Naqueles dias quentes de Verão que abrasavam Chaves, tremia de excitação, melhor, de felicidade. Julgava eu. Sei hoje que era de frio. Do frio que estava para vir. Ultimamente tenho-o lido e relido, perseguido os seus estranhos percursos em Baudelaire, Mallarmé ou Pessoa. Admirando sempre o fascínio que exerce sobre os poetas e os pensadores. Que talvez se deva ao facto de Poe ser aquele que melhor mostra que o existente, o visível, oscila e abala-se através de minimalidades: pequenas mudanças, pequenas mas radicais. Percebe-se isso melhor quando se atenta na actual indistinção entre o imaginário e o «real», necessária para os poetas, mas dificilmente vivível por nós. Poe será aquele que melhor compreende o efeito das pequenas dosagens, dos pequenos acrescentos, dos pequenos rasgões, com que o se cria um suspense insuportável, que tem de ser respondido. Estamos suspensos do movimento inexorável do «pêndulo» que tudo atrai para si, fazendo vaporizar toda a realidade no tiquetaque monótono que anuncia o irremediável. O Poço e o Pêndulo, que belo tratado de metafísica física. Como Poe vai mais longe do que Hegel e as suas enigmáticas lógicas de transformação da quantidade em qualidade. Nada de movimentos gerais, nem de linhas gerais. Apenas mudanças imperceptíveis que tudo alteram. E desalteram a alma.


blogando (7)
É interessante como a rubrica do «fait divers» dos jornais é tão popular no Blogo. Boa parte dos «donos do pedaço» andam a ver se «mordem o cão». O que é fácil se for cão de tinta ou de tecla. Sr. Cão, mostre lá os dentes a esses mordedores...

retórica
Depois de demolida por Platão a retórica fez-se ornamento literário, mas a preferência romântica pelo «feio» levou ao seu desaparecimento. Reveste-se agora de novas roupagens ao querer ser caminho da «verdade» e da «justiça», tornando-se argumento, forma de persuasão. Eis o fim da violência, o que tem um fundo de verdade. Enquanto estivermos a falar não nos estaremos a matar. Descoberta de Sherezade, mas mesmo aí tudo decorre ainda sob a ameaça de morte e de violência. Ameaça suspensa que explica porque persuadir, dialogar ou argumentar são ainda uma forma de violência, mas de tal modo dissimulada que estamos desarmados quando ela surge à luz do dia. Piedosamente, a retórica quer «comover», usando para tal a persuasão, mas os assim movidos pela comoção são exângues demais para podermos confiar neles. Pelo menos nas situações de urgência. Trata-se acima de tudo de nos mover, tudo finalmente baseando-se na ideia de que devemos «mudar» e mudar de lugar, sair de onde se está, e ir para outro lado, o lugar daquele que quer persuadir ou daquele ou daquilo em nome de quem fala. Ao que só se pode responder: não há outros lugares, há apenas um lugar, aquele onde estamos todos.

blogando (6)
Como se reconhece um «profissional» do bloging? É alguém que publica o seu post de cada dia, e vai à sua vida...

árvores


Vi de repente uma árvore de que gostei e nem pensei no nome dela. Era uma «árvore». Não valeria a pena. Nunca o descobriria, por uma peculiar mudança que leva a que ninguém saiba o nome das árvores e das flores. Não é apenas por terem desaparecido da nossa paisagem, pois aos animais sucede o mesmo e conseguimos reconhecer uma boa parte deles, têm nomes para nós. Deve-se a algo demais radical: a redução da botânica a uma especialidade, ao facto de termos deixado para trás a natureza no século XVIII, à esteticização da árvore que de Cézanne a Mondrian se vai tornando em pura dinâmica. Sabemos outras coisas, que nessa altura nem existiam. Mas porque é que não posso deixar de sentir uma secreta inveja daqueles que ainda conhecem todos esses nomes?

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