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domingo, julho 20, 2003

Blogando (5)
Foi tão longo, tão longo que, como Deus depois de ter feito a sua obra, pôde descansar e retirar-se da História. O essencial estava (per)feito. A partir de agora pode começar a Igreja dos fieis, essa pequena circunvalação.

liberdade
Imaginemos que um governo obrigava a todos os indivíduos, por lei, a que assistissem à televisão ou a blogarem. Teríamos revolta pela certa. Mas esses mesmo individuos fazem-no livremente e sem qualquer hesitação. Como é que se chegou aqui?

desagrado


Na imagem irónica que os antigos nos dão dos mestres estes não nos olham, os seus olhos vagueiam postados noutras «regiões» que não as nossas, mais hiper-urânicas. Não se percebe então muto bem porque se fica sempre um pouco medusado pelo olhar do mestre, por momentâneo que tenha sido. Ou mesmo inexistente. Fica sempre uma sensação de desagrado, como se tivesse infiltrado até algo demasiado íntimo, que preferimos não interrogar. Mas subitamente...

Blogando (4)
86777, 86778, 86779, não..., 86780, 86781, e continua..., 86782, 86783, 86784, não..., não..., é esmagador, ... 86785, 86786, 86787....

Blogando (3)
Com o recúo do tempo que entretanto passou, pergunte-se: Qual a diferença entre o Dicionário do Diabo em português e o Devil's Dictionary de Ambrose Bierce? Bierce escrevia incisivamente e DD escreve longamente, Bierce escreve satiricamente e DD admirativamente. Ora, como reza o Devil's Dictionary: «ADMIRATION, n.  Our polite recognition of another's resemblance to ourselves». Curto e grosso?!

Blogando (2)


Queremos reafirmar a todos os seus admiradores, entre os quais nos contamos, que o Abrupto, não tem uma sentimentalidade a puxar para o Kitsch, apesar da imagem que publicou. Este encantador ninho e o livrito debaixo, bem como a lua de Bruxelas, é apenas um intervalo sensível noutras ocupações MUITO sérias.

Blogando (1)
Por favor, Sr. Pedro Mexia responda ao Ivan Nunes,
que o espectáculo começa a ser penoso.

clima


Disse Bataille que a fotografia é um sinal de morte, uma prova de que algo foi e já é não, nunca mais será. Gostaría de defender exactamente o contrário. Reflexão feita a propósito de uma fotografia de Severo Sarduy, em que este se mosta ligeiramente inclinado ao lado de um higrómetro, quase antropomórfico. O mostrador e o rosto estão quase ao mesmo nível, como se estivessem em correspondência, mas simétricos relativamente ao clima. Enquanto o mostrador aponta para o «bom tempo», Sarduy está mais «nublado», como se o clima da vida estivesse em conflito com o «tempo». Fotografia que, já desbotada, me chega muito anos depois, não por acaso, que também existiu, mas porque me dá uma imagem de algo que só ela pode mostrar, dissimuladamente sempre. Ora, mais do que um sinal de morte, o que esta fotografia, aqui e agora, anula é o tempo que se sucede, que é um tempo da morte, tecnicamente medido, para nos fazer entrar num outro espaço formado por uma fotografia de mim a ver-me a ver a fotografia de Sarduy a dar a ver o o que há de estranho no clima. Trata-se de um espaço feito de afinidades, reunindo os próximos aparentemenet dispersos, para além da morte. E também aqueles que, em boa parte, nem conheço, mas que aguardam. Com que direito se entra aí? Quais as senhas e os passes?

plano


Sou avesso a grandes planos. Isso faz com que alguns vejam incorência e mesmo excessiva receptividade às coisas, às forças, à vida. Antigamente definia-se essa atitude como «oportunismo», que falha o essencial: o carácter imperioso da ocasião. Não tenho um plano para a vida porque esta não é «plana», nem geométrica, mas ocasional. Considero qualquer a decisão como o acto de um surfista obrigado a planar numa onda qualquer, que vêm de um mar onde há ondas de todo o tipo e que às vezes se aquieta a ponto das ondas parecerem ter desaparecido para sempre. Como se vê em Hokusai os homens, os seus veículos, a própria terra-firme são meros acidentes da grande Onda. Está-se sempre entregue às ondas, àquela que vem, que está a vir, mesmo, e nunca à onda perfeita. No final ver-se-à a coerência que alguns, ilusoriamente, quereriam encontrar no início. Desejo que só só gera tristeza. pela onda que não vem ou pela imperfeição das que vêm...

sábado, julho 19, 2003

desejo

Um dia destes passei pela Shakespeare & Co, o que faço sempre que vou a Paris. Estava fechada, e talvez por isso mesmo reparei numa tabuleta com um retrato de Walt Whitman, que sabia estar lá, sem nunca me ter detido muito a olhar para ela. A mania dos livros cega. Deste vez tudo foi diferente e li um verso em francês, o que era já estranho. W.W. pouco terá escrito nessa língua, se é alguma vez o fez. Traduzindo lia-se «Estrangeiro, [ou seria “estranho?”] que passas, não sabes o desejo ardente com que te olho». Frase demasiado claro, um pouco obscena, que me fez parar. E agora escrever. Lembrei-me de algo semelhante em Robert Walser, a espera infinita de outras pessoas. Não do «Outro», o dos filósofos, mas de outras pessoas, só isso. Nessa espera parece haver algo de imensamente digno e sofrido, mas agora dei-me conta de que nesse olhar cheio de desejo existe algo de predatório. Alguém que olha sem ser visto, nada de mais semelhante a um tigre que espera pela ocasião de se lançar sobre a presa. A presa do tigre é isso mesmo, presa-do-tigre, enquanto que ao olhar cheio de desejo daquele que olha sem ser visto tudo serve de caça. A semelhança acaba aqui. O que olhar ardendo de desejo é presa desse olhar. Tudo se torna mais nítido, numa época em que depois de sublimadas as paixões no «amor», mesmo este é malvindo, mesmo no seu estado mínimo - o amor de olhar. A estranheza que senti ao ler a frase lembrou-me a lição das feministas americanas de que todo o olhar é predatório. Claro que tem sempre de se olhar, e mal se tem critério para distinguir um olhar de outro qualquer. Uns segundos a mais, um súbito lampejo mais perfurante, e denuncia-se o predador. A polícia entra em campo. Em Whitman, neste Whitman pelo menos, descobre-se um elemento da cadeia que nos trouxe até aqui. Como se todos os desejos tivessem de ficar impreenchidos, mais ainda, como se o desejo de olhar já crime, se tivesse de esgotar na frase poética que o afirma olho-escrita do desejar. Pobreza da poesia que arde em papel por não poder arder em vida. O olhar vazio e fugaz dos passantes de Baudelaire já não chega a cruzar-se, e só desse choque podia sair algum calor. Senti-me próximo do poeta, na sua nostalgia por um tempo em que o olhar se podia espraiar longamente e detidamente, caçador sem o saber, caçado acima de tudo pelo que passa, por aquele corpo, essa coxa, um olhar. Um olhar quente e ardente é perigoso. Um olhar frio e gélido é perigoso também. A frieza do olhar que abomina a carne que não seja no celulóide ou no vídeo; o excesso de calor do olhar dos predadores urbanos que nenhuma carne sacia, - tudo isso mostra que a guerra é outra. Que o melhor é fugir, evadir-se da «dialéctica» que tornou obscena a frase de Whitman. O «ardente desejo» pelo passante já só tem lugar na tabuleta da livraria, que fica como vestígio de uma outra temperatura da vida.


inocência



Junto das crianças deixem-se as dúvidas à porta. Elas perguntam em busca de amor, e como diz Blake «se uma coisa ama, ela é infinita». Não perguntam para saber, nunca esperam a resposta até ao fim, talvez pressentindo que o fim não interessa. Nós examinamos e julgamos, perguntamos porque vivemos na obsessão do fim e dos fins. Os melhores de nós, perguntam porque querem conhecer o mecanismo das coisas sem as chegar a abrir, o que é a nossa maneira de sermos infantis. Enquanto as crianças abrem as coisas para mexer no mecanismo. Que estragam normalmente. É essa a crueldade da infância. Somos menos crueis, elas mais inocentes. O que caracteriza nosso tempo é o encurtamento brutal da idade da inocência.

eternos
Sempre estive convencido de que as personagens de literatura têm mais vida de que nós. Beatriz ou Hamlet, para mim Raskolnikov, estão mais vivos do que eu. Em Musil existe também essa intuição. Devendo Ulrich e Agathe realizar o incesto, pela lógica do livro, Musil não obedece. Explica-se: «Eles não querem». Mas a essa vida falta a finitude de ter vivido. Começaram logo eternos, e isso é uma falha enorme.

gravador
A história do corpo mais não foi do que envolver a carne de véus, máscaras, números e palavras, a tal ponto que chegam a abafá-la, embora ela esteja sempre lá, numa receptividade absoluta. É assustadora essa passividade que é verdadeiramente maquínica. Se pudessemos desdobrar a fita que constitui a carne veríamos que é uma espécie de gravador. Essa fita regista uma dentada do braço feita em Chaves há demasiados anos, por alguém que já morreu, a onda de choque de um pontapé duma pedra que enruga uma unha, mas também gestos que vêm de longe, e que passam para as crianças. Como numa fotografia vemos algo que seguiu o seu curso e deixou aquela imagem para trás, também num gesto vemos a imagem de alguém que amámos e que nos interpela. E que muitas vezes pode parasitar a vida daqueles que, ainda, nada sabem...

rumo
Como é melancólico pensar que as imagens lançadas para o éter pela televisão, ou as ondas sonoras da rádio, continuarão a sua viagem rumo às estrelas, muito depois de termos desaparecido.

idiotia
Diz-se que quando o dedo aponta a lua o idiota olha para a mão. Não é isto mesmo o famoso punctum de Barthes? Uma idiotia por onde o real se intromete e destrói toda a «composição», num oscilação imperceptível de tão rápida. Como se algo do real viesse no «interior» daquilo mesmo que o nega, as nossas «imagens», como se alguns elementos fossem mais «reais» que outros, tendo apesar de tudo a mesma natureza. A idiotia surge nesse instante, para logo desaparecer. Os photoshops actuais, ao deixarem-nos fazer de tudo um punctum à nossa vontade fazem de todos idiotas, perdendo-se «dedo» e «lua».

blow-up
Gulliver umas vezes aumenta desmesuradamente, e fica um gigante, noutras diminui até quase ficar invisível. Não se trata de simetria da vida, em que umas vezes se aumenta e outras diminui, por compensação. Entregue a si mesma a vida não é compensável. A telescopagem de Gulliver servia justamente para criticar a «vida». Quando em Lilliput Gulliver se torna num gigante, tudo parece demasiado insignificante. Reis, palácios, os saberes e os costumes, tudo demasiado ridículo, visto dessa perspectiva. Quando, depois, se torna diminuto, o pormenor ressalta, sai da sua «invisibilidade», escapando ao seu «inconsciente óptico», como dizia Benjamin sobre a fotografia. Sabemos agora que Swift parava a telescopagem demasiado cedo, nunca a levando suficientemente longe. Um pouco como sucede com o blow-up quer-se sempre descobrir um sentido qualquer. Continuando a telescopagem numa direcção e as maiores estrelas reduzem-se a um ponto, depois noutra, e as imagens, nomeadamente as digitais, reduzem-se a granulado, finalmente também elas a um ponto também. Na base de tudo a «absurdidade» do ponto? Será que o famoso «átomo» de Demócrito ou de Lucrécio erta afianl este «ponto»? Talvez se descubra que o sentido só existe à custa da dissimulação do ponto, pela combinação dos «pontos». Tudo construção, portanto.

cinematismo
O «distanciamento» Brecht era uma forma de controlar os efeitos da obra. A vontade do autor permanecia dentro da obra como um aranha escondida na sua teia. Queria-se ter efeitos e bem precisos, evitar o «encantamento» do espectador, a sua alucinação pela dinâmica da «obra». Infelizmente para ele a alucinação está no mundo, e sair da obra para o mundo significa fazer mais do mesmo. Desde Duchamp, mas também no cinema de Fincher adivinha-se o modo actual de ser «brechtiano», de afectar politicamente. Perdida a confiança brechtiana na fronteira que divide a consciência da sua alucinação, ou a obra da sua recepção, então só resta agir na fronteira movente que ela estabelece com todos e cada um de nós. Por ser o cinema, antes de ser obra, é uma máquina puramente afeccional, que no movimento dos seus frames trama o desejo e enreda a «consciência», não é pela consciência que se pode suspender a afecção encantatória. É preciso abalar o cinematismo que tudo afecta. A solução de Fincher é interessante: "There’s an audience expectation and I’m interested in how movies play with--and off--that expectation». Lição profunda esta, antes de ir mais longe, sem sabermos mesmo se é possível «ir mais longe», trata-se de desafectar, reafectar o movimento que nos embala e em que vamos embalados.
Lx, 18.7.01

sexta-feira, julho 18, 2003

discípulos
Como há tantos mestres à caça é preciso fugir dos díscípulos a sete pés. Perto deles, nunca sabemos se na caçada não seremos também apanhados...

fio
Para os antigos a vida mostrava-se como um fio. É sinal de crise ter de esclarecer que esse fio era afinal um trança, feita de muitos fios. Quando a trança se deslassa, torna-se numa malha, talvez uma rede de pesca, e nela enreda-se a vida e vem à rede muita coisa que dispensaríamos. Minúsculos sentimentos, ideias a pataco, pneus velhos, garrafas de plástico e um cadáver que outro...

frase
Como escrever, quando toda a gente escreve, a pontos de começar a haver mais «escritores» do que leitores? Antes da tipografia a leitura era uma arte, e os leitores reuniam-se para celebrar uma palavra essencial; depois veio a vergonha pela «passividade» e só escrever contava, e o leitor revoltava-se. Finalmente, hoje, desaparecidos os leitores, os «escritores» reunem-se em bandos de 85 ou 86 e tentam impôr um estilo, uma escrita, agregando-se numa afecção tribal colada pela electricidade digital. O problema é a afecção. Não esta ou aquela em particular, mas a afecção. Gerturde Stein diz que «a Sentence is not emotional a paragraph is». A ser assim, muito depende de que a frase única que alguns escrevem e que não se distingue do próprio fio da vida, da sua vida, nunca se feche no parágrafo ou numa estorieta. É necessário, diz ela, «salvar a frase». Acabei de citar o incitável, não Stein, claro, e as esquálidas Parcas contemporâneas que se bandeiam em bando, já não puxam da tesoura com as de antanho. É que a tesoura não se distingue da mão que a segura, e o desejo que atravessa essa mão já não se distingue da mão que não se distingue da tesoura. Muita afecção, crise da frase, escrita-tesoura. A indignação é o gume da tesoura...

marx
Dizer que terminou a época das interpretações é uma das afirmaçõees de Marx que tem de ser revista, oh! palavra tremenda. De facto, tem implícita a ideia de que a «metafísica» nada tem a ver com o estado de coisas, antes ocultando a sua verdadeira essência. Nada de mais errado. Mesmo antes da modernidade já a teologia organizava o mundo segundo a sua imagem dos dois espaços, o daqui e o «outro», do além, absolutamente maravilhoso. Simples ideias que ocultavam a servidão? Podería ser, mas seria preciso esquecer as belas cidade medievais, a replandescência da pintura da paixão, as catedrais góticas de pedra surpreendemente leve, que hoje são defendidas com unhas e dentes, como se nelas não estivesse a servidão e que mais sei eu… . Outro exemplo contra, o da matemática que estruturou o mundo ocidental, que tipifica toodos os actos, que mede todo o existente, que governa tanto as estradas como as missões espaciais, e que suporta todo o mundo dos blogues que tanto encanto tem, para alguns. Não se trata, portanto, de compreender as suas funções, sempre menores, mas de captar a enorme potência que se desdobra através das ideias, das imagens ou das frases. Quando as frases saão escritas em numerologia digital melhor se percebe que a prática dos computadores não se separa de ideias bem simples. Quanto muito Marx pretendia dizer que a «imagem» da filosofia estava completa depois de Hegel, que de nada servia melhorá-la, corrigi-la ou reformá-la. E tinha razão, mas isso nada diz sobre que sucede depois da filosofia. Tudo indica que a distinção entre ideias e práticas perca sentido, mas como disse, nunca o teve, verdadeiramente. Devemos fazer a Marx a justiça de que ele não pretendia arrumar os «teóricos» apelando ao concurso das massas para os «refutar», mas ainda, por uma última vez, introduzir um distinguo teórico para poder separar as «boas» imagens das «más», as perigosas das revolucioná¡rias, etc. Era ainda a filosofia ainda que deveria finalizar a filosofia, que assim se carescenta paradoxalmente à impossbilidade de filosofar. O que significa que o fim não ocorre num ponto, mas vai ocorrendo… Seria preciso que Matx tivesse sido mais incisivo. E, de facto, Marx hesitava, como reparará quem se der ao trabalho de entender a sua inquietação diante da força de encantamento da arte antiga, que o deixou interdito. Como ele não quis resolver este pequeno enigma, abriu a porta a soluções sangrentas, nas Épocas de sangue, ou às soluções«interessantemente interessantes», na época da maré baixa da vida, como aquela em que estamos, blóguica.

contador
Um contador automático pode ser usado como uma máquina anti-narcisíca, abalando com as suas frequências todas as ilusões, libertando o espírito para coisas mais interessantes do que enumerar os passantes. É certo que um contador pode ser falsificado, sendo derrotado pelo eterno Narciso a quem o monitor serve de espelho, e que acaba sempre por vencer. De repente deixa de funcionar, à medida que os números se exponenciam, criando-se uma pressão para os aumentar, ou para que não diminuam. Eis a vontade potência expressa matemáticamente. Talvez fosse melhor não ter contador...

monstros
Os «monstros» constituem um dos eixos estruturantes do imaginário Ocidental. Desde os velhos gregos que dominar os «monstros», evitar a mistura dos humanos e dos animais, é uma forma de controlar esse imaginário e, através dele, a linha ténue que divide normal e anormal. O controlo do imaginário acaba sempre por ser uma forma de «estabilizar» a experiência em quadros mais ou menos rígidos, canalizando a vida, em si mesma brutal e espontânea. Tudo isso mudou repentinamente, e pânico provocado pelo «monstro» foi substituído pelo fascínio. O «vampiro» de Copolla era monstruoso por excesso de «amor», o Hanibal Lecter é um «canibal» que come basicamente os «maus», o freak é amorável. Como mais um sinal do hibridismo contemporâneo, o monstro torna-se, agora, algo positivo. Donna Haraway autora do excessivamente famoso Cyborg manifest fala mesmo do monstro como a «promessa» de uma «política regenerativa» baseada no impróprio e no inapropriável. Libertar o imaginário é, assim, o acto político por excelência. Mas está-se a libertar o quê? Podemos pensar que ao explodir a imagem do «monstro» os seus fragmentos disseminam-se por todo o lado, fora dos quadros em que estava contido, o famoso labirinto do Minotauro, esse monstro inicial. Dele conta o mito que Teseu entrou no labirinto para matar o «monstro» com a ajuda do fio de Ariana, que lhe permitia encontrar a via de saída. Ao que parece o mito enganou-se e enganou-nos. E se Teseu não tivesse vencido, e tivesse sido morto pelo Minotauro e este disfarçado de Teseu tivesse usado esse fio e, assim, escapado ao labirinto que o prendia? O monstro disfarçado vaguearia num mundo onde já só existiria o monstruoso, mas sem figura. Entendo deste modo Georges Canguilhem quando diz que «a vida é pobre em monstros e rica em monstruosidades».

ecstasy
Um medíocre com dois comprimidos de ecstasy ainda é um medíocre, embora mais «animado».

bold
Acaba por ser uma ilusão a vontade de «acabar de vez» com alguma coisa, com a «cultura» por exemplo. Pode-se sempre pôr outra coisa à frente, que tapa a primeira, ou então fazê-la perder no meio de outras. Em último caso mandamo-la de volta para o diccionário, de onde saiu e veio assombrar o mundo. Mas algo se faz, por mínimo que pareça. Mistério do diccionário que ressalta ao vermos todos os termos juntos, numa coexistência aparentemente pacífica. Olhando mais de perto damo-nos conta de que as «palavras» estão em guerra. Algumas estão a Bold e outras não, umas estiveram e já não estão. O «corpo« não tinha Bold e passou a tê-lo, a «verdade» por exemplo tinha Bold e deixou de o ter, etc. Estar ou não a bold era um processo histórico, ligado ao poder, que escrevia o mundo através destas inscrições. Com o computador isso altera-se. Temos agora uma nova tipografia digital que permite rapidamente passar do Bold para o itálico e do itálico para o normal que se colam a toda e qualquer palavra, indicando os estados de alma de quem escreve, mas também o seu afastamento do mundo.

tinta
Quando se compra uma casa velha começa-se por pintá-la, o que parece justo pois é preciso renovar. Mas a outra função da tinta é apagar todas as marcas dos antigos moradores, anular a sua presença fantasmática.

sismógrafo
Seria possível ver o cinema como se fosse uma espécie de sismógrafo da vida. A ser assim seria um duplo sismógrafo, um deles registando nos seus ritmos perfeitos os ritmos quebrados da vida, restituindo o seu «inconsciente» pelo mero facto de «dar a ver» por essência. O outro sismógrafo seria o da própria «vida» que usa o cinema para dele extrair as imagens que a fazem sonhar, ou ter pesadelos. O cinema, uma forma de despertar do sonho profundo em que estamos mergulhados? Desse sonho profundo nunca se desperta verdadeiramente, pois as imagens do despertar ainda são isso mesmo, outras «imagens».

quinta-feira, julho 17, 2003

dinossauro
O genoma humano tem arquivado o dinossauro e, em geral, todos os animais. Seria mais fácil ir buscá-lo aí que ao mosquito do Jurassic Park.

trabalho
Enquanto houver constituição o direito ao trabalho não é menos importante que o direito de voto. Nas condições actuais não é pensável uma voz livre sem o direito de voto, tal como não é pensável um corpo livre sem direito ao trabalho. Todos os outros direitos estão subordinados a estes dois. Não devemos esquecer, no entanto, que o voto não liberta suficientemente a voz, nem o trabalho suficientemente o corpo, mas ir mais além, começa aqui e agora, com a defesa destes direitos

anjos
A artes clássicas afastavam com uma violência doce aqueles que delas se aproximavam, se não estivessem preparados para elas. Nas novas artes interactivas todos são aceites, sem mais, e só por isso são «criadores», à maneira de moscas que produzissem pelo mero facto de voarem. Na pintura os que conseguiam entrar na obra apareciam como «anjos» que, nalguns casos, pegavam da espada enfurecidos. E se é verdade que anjos e moscas voam, isso não apaga as diferenças entre ambos...

pornografia
Instrumento para afectar a carne demonstrando pela enésima vez que a carne é fraca.

mesmo
Exercício curioso o de escrever sobre a carne, e os seus apelos. Trata-se sempre de um efeito de se ler demais, e lê-se sempre demais, ou de ter de escrever, e a escrita é uma imposição, linha já sempre escrita arrastando-nos como um peixe para fora de água. Negócio de letras, palavras e frases, que enxameiam tudo e todos, os que escrevem mal e pensam pior e aqueles que têm vontade de escrita. Daí um certo nojo pelas palavras, essa ganga do comum. Como separar-se de tudo isto? Apelar a um absoluto, deus ou a carne.Triste subterfugio este, pois a palavra «carne» é antes de mais uma palavra. Nada pode carregar tal palavra de «carnalidade», pois «esta» fica na orla das frases que a convocam, que a rodeiam para simularem que estamos a tocar em algo mais «denso» do que uma palavra. Ir à carne na literatura significa praticar-se uma filosofia de talhante que corta a língua, a divide entre intelecto e carne, entre palavreado e a «pura» coisa, como no talho se corta a carne, dividindo-a em peças, rotulando-as de «alcatra» e «picanha», para finalmente a crucificar no papelito com o preço. Fim das palavras e começo da carne, mesmo? Não, fim das palavras que protegem a «carne» - a «alma», esse outramento da palavra «carne» pela palavra, tal como a palavra «carne» por su vez já diferira a «carne»-carne. À frase que usa a palavra «carne» para fingir que a carne está aí, além da palavra, deve-se opor a incompreensabilidade de algo que está, não além das palavras, mas sempre aquém delas. De facto, é a alma que está além das palavras. E não se diga que é mais uma palavra, apesar de o ser. Como perdeu uso, já não tem sentido, é a sua ausência que potente. Deslize contínuo das palavras umas sobre as outras, que tem o seu inverso literário na frase: «a carne é a a carne é a carne…». Não há melhor sinal de que as palavras adoeceram e que a «carne» está em perigo.

graffitti



Quando se repara nos graffiti de Keith Haring ou Basquiat e os graffiti dos jovens actuais não podemos deixar de sentir alguma estranheza. Em boa parte não passam de «assinaturas» indefinidamente repetidas, como sinais de algum ser em busca de provar a sua existência. Isso, no momento em que existir se reduz aos sinais da presença, de uma presença qualquer. Tudo faz sinal, e o humano desaparece quando se limita a mostrar-se na televisão por um acto excessivo ou bizarro, que a assinatura identifica. Existe-se porque se é mostrável. Enquanto que em Basquiat se tratava da mobilização do mundo pela imagem, de fazer pequenos golpes na imagem do mundo, sentido-se misteriosamente que por ali tinha estado um homem, que se apagava através da suas imagens fantásticas e das suas palavras quais gritos de guerra. Mal ou bem, sabíamos através daquelas imagens que ainda havia outros homens… De imediato, inadvertidamente, fazíamos parte de uma comunidade efémera que nos fazia sentir acompanhados durante as corridas solitárias pelas ruas da cidade ou as descidas forçadas aos subterrâneos do metropolitano. Agora, nas imagens que nos mostram algo como gente na televisão ou na assinatura que nos indicam algo como homens, a cidade pesa sobre nós como uma prisão, sentimos que não vale a pena sair dos metros. Os “nossos irmãos”, os “nossos próximos” ainda ecoam nesses míseros sinais, mas apenas porque fugiram, desertaram… Nesses sinais de uma fuga ainda é preciso ouvir o apelo àqueles que fugiram, para que voltem.

dança
Mais do que os corpos que dançam importam as ondas rítmicas que os transportam nos seus arabescos estranhos e maravilhosos. Eis toda a diferença entre queda e graça, atraves da qual as almas se tornam pesadas e e os corpos leves.


quarta-feira, julho 16, 2003

plural
Nada se pode dizer de interessante sobre a «imagem», apesar de muito se falar delas. Tem a ver com a sua “essência”. Por natureza que elas vêm sempre no plural, são a origem única da multiplicidade. Descobrimos sempre demasiado tarde que por «haver» imagem tudo se dividiu. É uma imagem dizer que se dividiu em «coisa» e em «imagem», a «sua» imagem. Faz-se imagem e tudo é dois. Eis o seu pitagorismo inexorável. Querer voltar ao “Um” é uma mera patologia da linguagem, pois se o «Um» fosse possível a imagem não o seria, e só através dela o «Dois», mas também o «Um», como todos os outros números são pensáveis. Assustados com o fragor guerreiro do «dois», número do duelo, os dialectas à imagem de Hegel ou de Marx sonham com o «três», em que o dois se abre ao tempo para desaparecer, um dia, no «Um». Forma de vencer a guerra sem a chegar travar, adiando-a indefinidamente. Tudo espelhismos do «Dois» originário, que não conseguem cancelar, enquanto falarem ou escreverem, mas que está em perigo. Não é por eles que está ameaçado, infelizmente…

ideias
Tem-se discutido infindavelmente a natureza e a origem das famosas ideias de Platão, e os resultados são magros. Dizem mais acerca daquele que escreve e daquilo que o faz mover do que sobre Platão. Daí não vem qualquer mal, e às vezes produz algum bem. Mas não serão as coisas muito mais simples? Afinal de contas as “ideias” são, em primeiro lugar, palavras especialmente dramáticas e dramatizadas, que entraram em guerra com todas as outras. Na sua simplicidade esta hipótese nada nos diz dos motivos dessa guerra, nem porque foram perdendo o imenso peso que um dia tiveram. É certo apenas que perderamm dramatismo, se libertaramm de um drama de que eram cúmplices sem serem parte interessada, mas nem mesmo é seguro se com isso a paz pode começar.

terça-feira, julho 15, 2003

metafísica
Muitas perversões do pensamento actual explicam-se pela maneira como se relaciona com a metafísica. É o caso do pós-modernismo ou do feminismo, mas também do pensamento do híbrido, todos embantendo contra a «metafísica» ocidental que, nuns casos, seria «racionalista», noutros «falocêntrica», noutros ainda, vítima de uma «mesmidade» que a impede de valorizar ou aceitar as «diferenças». Trata-se de uma coerência, de uma «monocracia» que na verdade nunca existiu e que foi inventada peça a peça no século XIX, nomeadamente por Hegel. Para se colocar no cimo da montanha histórica ele foi obrigado a sublimar todas as hesitações, combates e oscilações dos filósofos anteriores, fazendo deles um elo de uma cadeia, que só se constituií à medida que cada um desses elos era forjado. Não por acaso o momento da invenção da metafísica foi também aquele em que se anúncia o fim da história. Desatentos a este fenómeno, Marx e a sua vontade de intervir no «real», Nietzsche a sua vontade de encerrar a metafisica por um novo imanentismo da vontade, Heidegger e a sua «desconstrução» textual, mais não fizeram do que enredarem-se nesta invenção. Mesmo aqueles que pretendem encontrar uma outra tradição, paralela e reprimida pela «metafísica», ainda estavam presos desta visão. De facto, trata-se de um gesto muitas vezes repetido, que já Aristóteles fizera para a Grécia, que regressa uma e outra vez, desprezando o facto de que não existe tal coerência, que tudo se baseia em tentativas, proliferações, hesitações, etc. É certo que um novo escritor acaba por ler outros, criando o seu arquivo imaginário. Se a metafísica ganha tão intenso dramatismo é porque corresponde a algo necessário: o desaparecimento do «invisível» e do «além». O que explica a profusão selvática de metafísicas do «amor» (Schopenhauer), da “moda” (Balzac), do «carácter» (Klages), etc. Mas isso não implica que nos steja interdito de «Metafísica». Nós, herdeiros tardios do século XIX, não podemos, infelizmente, esquecer esses grandes textos que produziam a metafísica e seria bom se pudéssemos fazê-lo. Enquanto não suceder resta-nos sempre o riso com que se abalam essas estruturas coerentes e perigosas, como a pataphysique de Jarry ou a Physique amusante de Duchamp. Nas críticas actuais da metafísica, que ficam inteiramente dentro do quadro que criticam, é isso mesmo que falta: «bom humor».

amigos
Sem amigos a amizade diminui, e a inimizade cresce. A relação entre os amigos e a amizade é complexa, pois depende da inimizade. Eis uma caso de assimetria perfeita: diminuindo os amigos diminui a alegria, aumentando a inimizade o mal prolifera em cadeia. Porque a amizade detem-se no amorável, e inimizade que tudo corrói, infiltra-se como ácido na superfície da vida.

segunda-feira, julho 14, 2003

14 de Julho
Os que fizeram a revolução francesa desataram a disparar sobre os relógios, talvez para parar o antigo tempo, e começar um novo. Depois da revolução o tempo está sempre a começar, a tornar-se vindouro e a voltar para dentro dos relógios. Tempos vieram, tempos virão, mas os meus tempos são outros: os da tomada da Bastilha, e das bastilhas. Aqueles disparos mal se fazem ouvir, mas é certo que os relógios digitais pulsam como se hesitassem ou ainda se lembrassem...

citar
Como se deve citar? Pouco, em princípio. Rio-me sempre um pouco com aqueles que fingem que não citam, que não querem citar de modo nenhum. Mas no fundo cita-se sempre, mais ou menos obscuramente. Cita-se um livro, uma fase no autocarro, uma cena que se espiou. Ora a citação é ainda uma forma de salvar o texto, de deixar ecoar a voz de um autor em desaparecimento no abismo dos arquivos (e todos estão em desaparecimento, longe dos textos que deixaram de ser «seus», apesar do copyright). Não teríamos hoje nada de Heráclito, de Demócrito, de Anaxágoraas, pouquíssimo de Epicuro se não fosse o amor pela bela frase que leva a citar. Lucrécio pretendeu mesmo, no seu livro sobre a Rerum natura, nada dizer de si ou pensado por si, querendo apenas recitar longamente Epicuro. Também ele foi derrotado, mas não o seu amor, que salvou Epicuro. E o salvou a si próprio, ao mesmo tempo que nos instituiu o código «secreto» da Europa. Deveriamos, talvez, ao citar usar passagens longas. Para salvar o texto. Mas merece todo texto ser citado? Sim. Todo o texto citado merece sobreviver? Talvez não, mas isso mais por defeito do nosso amor.

especiarias
Perguntaram-me uma vez no estrangeiro qual era «o» filósofo português. Vários nomes vieram-me à memória, mas não escolhi nenhum. Respondi que talvez Spinoza tivesse estado para ser o «nosso» filósofo, mas nem esse tiveramos. O que era um alívio, na verdade. Livrámo-nos assim de ter que «desconstruir» a filosofia, de levá-la «ao fim» ou de «realizá-la». Podemos ficar indiferentes à never ending story da filosofia, ou ironizar com a «pós-filosofia». Risos, meus também. A alegria vem, não do momento em que a ave de Minerva levanta voo, mas do voo das aves em alto mar indiciando presença de Terra, ainda outras especiarias, mulheres e combates…

limbo
Estar no limbo significa estar à espera de uma decisão de que já se conhece o resultado, instilando-lhe uma indecisão que é improvável. Chame-se «liberdade» a esta confiança absurda em que tudo ainda possa ser diferente.

paradoxo
É misterioso que do casamento dos riscos de um lápis com o branco de uma folha possa sair uma infinidade de figuras. Muita à la Borges quase se diria que no compacto da grafite estão todos os desenhos e todas as histórias. Ou que o branco da folha se alisa para tudo poder receber. Eis o paradoxo: do gesto que risca salta-se para o arquivo do que já foi desenhado e deste para o compacto da matéria. E depois faz-se o movimento inverso. Mas sobra sempre a infimidade da mão no momento em que traça. Infelizmente também seria possível dizer que todas as mãos, firmes ou desajeitadas, estão na grafite. Seguindo esta linha traçada por palavras, percebe-se que a «grafite» era apenas uma nuvem de palavras …

verde





O verso de Lorca verde que te quero verde chega transmutado a mim por uma experiência antiga, com que me deparo uma e outra vez. Cedo reparei como as estradas alisadas pelo alcatrão eram enrugadas pelas raízes das árvores, numa fingida indidiferença; ou como as pedras dos palácios eram destruídas por musgos e pequenas ervas, que se infiltravam entre elas, descobrindo fendas onde apenas havia cálculo e desenho. Força arcaica do “verde” que ainda permanece, apesar de tudo. Nela se enraízam o nosso medo, e a nossa confiança, como sempre sucedeu. Queremos o “verde” porque gostamos do frisson des “nosso” medo, mas o maior dos “medos” é que este desapareça pura e simplesmente.

todos
Aos 17 anos li e acreditei no que Marx dizia sobre o fim da filosofia. Como depois acreditei em Lautréamont quando defendia que a poesia era feita por todos. Como julguei compreender o dito de Beyus segundo o qual todos somos artistas. Muitos são os que se escandalizam com estas frases, ou melhor, o que dá no mesmo, que as pretendem discutir, complicando algo eminentemnte simples. Significa apenas que todos podem pensar, agir, formar. Não será essa presença de «todos» no espaço murado de alguns happy few, que demoraram toda a história para os erguer, que assusta? Mesmo a nós...

mínima
A unidade mínima de escrita é a ideia.

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