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domingo, julho 13, 2003

garrafas
Uma imagem antiga da esperança da escrita, e nela todos somos póstumos, sem precisarmos de ser Nietzsches, era a da mensagem da garrafa lançada ao mar. Belo equilíbrio entre a impotência e a criação de mecanismos para a tornar suportável. Se não se pode escapar da ilha, pelo menos que a garrafa que se afasta em direcção ao horizonte produza cada dia que passa uma pequena saída. Agora na Internet já só existem garrafas, é mesmo um mar de garrafas, que se chocam entre si e fazem uma cacofonia. A escrita perde a errância, essa pequena fresta na vida. Já não vagabundeia, vai á caça. Seria preciso lançar o mar à garrafa…

cansaço
Quando se está cansado é fácil chegar à conclusão de que o Ocidente está cansado, que a filosofia chegou ao fim, que «isto» não tem sentido. Há ainda um cansaço metafísico que diz que esperar cansa, que se está cansado da prórpia esperança, que o apocalipse será vencido pela fadiga. Mais prosaicamente outros estão cansados de trabalhar, sentindo que nenhum banho limpa o suor, que leram e leram e a pilha dos livros sempre a aumentar, com a agenda cheia de pequenos deveres. O meu cansaço ... é de estar cansado, sem mais.

peso
O medo do contacto foi sendo trocado pelo medo do contágio, processo que corresponde a uma especial dramatização das ligações. Historicamente o contacto mais absoluto é o canibalismo, e os sacrifícios humanos, Acabar com isso passou pela escravidão, em eu o corpo do escravo estava à mão, tendo sobre si suspensa uma sentença de morte ou de uso total. A ideia de que cada um é dono do «seu» corpo, própria do individualismo, é a forma com que os modernos procuram sair deste círculo infernal da carne. Mal ou bem sabia-se quão ilusória era tal propriedade, que tudo se baseia no Eros que liga. P fundo de verdade dos modernos é que só a tensão do desliigar pode fundar a ligação, se livre. Numa das suas Elegias Rilke refere o modo com nas estelas funerárias gregas representavam o peso do amor, que é a forma mais metafísica da ligação, numa hesitação de «mãos», «Suavemente apoiadas sem pressão, ainda que nos torsos haja força». Algo impedia que o peso caísse sobre o corpo, uma rede invisível mas poderosa suportava o que existe nele de invivível. Um gesto que toca sem pesar, um peso que se aeriza sem se evaporar. As imagens digitais operam, também elas, esse pequeno milagre anti-gravitacional que nos é dado a ver pela estela que mostra um limiar onde a queda brutal é suspensa, em que é diferido o toque insuportável sobre a carne, mas falta-lhes o saber da carne, que é eminentemente político.

ritmo (Ao Miguel Pereira)
Ao diagnóstico da morte da arte têm muito respondido com a ideia de que a arte é efémera, com a vantagem de que, deste ponto de vista, todos somos «artistas» como pretendeu um dia Beyus. Eternidade e efemeridade não se opõem verdadeiramente, são simétricas da mesma impossibilidade de responder ao enigma da arte. A arte pode não ser eterna, mas é fatal. Uma vez feita a obra, valha o que valer, ela tem a eternidade de ter-sido, repetindo-se eternamente enquanto tal… são os seus encontros e desencontros que são efémeros. Mas, depois ocorridos, também eles são fatais. É isso que explica que desde sempre tenha sido complicada a relação entre o artista e a obra, sobre a qual se fez muita má metafísica. Dada a fatalidade da obra e a fragilidade do corpo o encontro entre ambos constitui um choque. E é o corpo que mais sofre, atravessado por forças que a obra capturou e estão sempre prontas a explodir, arrastado pelo ritmo inexorável que cada obra produz e que atinge todas as fibrilações do corpo. Potência da obra e impotência do corpo? Antes império do ritmo que se cristaliza numa obra na qual um corpo vibrou a pontos de se ter tornado invisível. Num momento breve podemos apanhar essa entrada em vibração, que logo se invisibiliza. Isso ocorre em todas as artes, mas foi preciso esperar pela performance para vermos ainda o corpo a confundir-se com o ritmo. A obra é uma espécie de gravador que repetirá eternamente esse ritmo. Só o ritmo é eterno.

movimentos
Vistos de longe, da órbita da terra, os movimentos humanos deverão assemelhar-se às errâncias brownianas das partículas, em que há muita agitação e pouco propósito. Tudo movendo-se, cada um com propósito, e no conjunto absurdamente arrastados pela translação da Terra, pela gravitação da galáxia. Tudo um pouco absurdo, que levaria a pensar que mais valia estar quieto, que o resultado será sempre o mesmo, o retorno aos elementos. Algum desespero viria desta imagem se não fosse que o que distingue o humano é uma certa cegueira - nunca ver demasaido de longe, nem demasiado de perto -, e o facto de que se passa tudo na maneira como cada um se move nesse movimento, e não nos resultados. Mesmo assim a coisa torna-.se irónica quando voltamos a pensar no assunto..

rosa
Todos os místicos dizem que a Rosa é sem porquê. Sobre a rosa já tudo foi dito, mas qual a razão do «sem porquê»? Coloco-me mentalmente na situação em que haveria rosas e não homens, onde havia lagos e ainda faltavam os homens. O místico vai a esse ponto original onde a rosa se reflecte na superfície do lago sem ninguém para ver, e sem que ela se pudesse dar conta disso. Os homens vieram e introduziram-se neste maravilhoso tête-à-tête, e estragaram-no. Antes deles havia duas rosas, uma que abanava ao vento e mudava de form á medida que as pétalas eram pressionadas pela força deste, e um outra que ondulava na superfície das águas. Tudo isso se perde, essa divisão é condenada, e os místicos lançam-se em busca da rosa absoluta, antes de se dividir. Os críticos dos místicos, que são sempre místicos sem o saberem, inventaram as lógicas para colar estas duas imagens uma à outra. Mas a «rosa é sem porquê» porque não se inquieta com essa estranha profusão, proque se acresenta ela, tudo acolhendo - o vento, a água, ... e os homens.

escrita
Polir a escrita é como polir um espelho.

totalidade
Só muito tarde se aprende que os primeiros espelhos «mecânicos» foram feitos de palavras. Antes de qualquer representação de Narciso, de Medusa ou de Dionísio já os espelhos míticos os estavam a refectir. O mais estranho é que sobrevivam espelhos de palavras depois de terem sido feitas uma série de maquinarias catrópticas. É o caso da Phenomenologie de Hegel. A natureza tardia deste espelhos eprfeitos e absolutos deve-se á necessidade de captar todos os reflexos: os da natureza, os do mito, mas também os dos espelhos propriamente ditos.

ilha
Com a aplicação radical que caracteriza os ingleses desde Defoe ou Swift, a ilha do Deus das Moscas é o território da história menos o verniz que recobre a natureza. Mas este estala a violência mais arcaica emerge e também os rituais tribais mais desenfreados. A bárbaro está sempre aí, e trata-se de pôr-lhe akgum travão. Novas ilhas têm vindo a ser criadas a que se chamam chats, IRC ou os Comments dos Blogues. Lugares de aparente liberdade, pois estão sob a vigilância do senhor do espaço, mas mal esta começa a afrouxar logo o mais arcaico retorna, felizmente na escrita, graças a Deus. Na escrita a barbárie é o puro dislate, as frases desconexas, e no pensamento a escropofilia. Tudo isso enquanto se espera que o Senhor se manifeste ou na esperança de que seja um deles com um nickname, ou que os esteja entre eles, ou que os esteja a ler pondô-os à prova, para encontrar os escolhidos. Claro que nada sucede, e a espera é vã... Bons tempos os do Deus das Moscas, agora uma enorme varejeira cercada de moscardos... feitos de bolds, fonts e reticências.

dever
Tenho reparado displicentemente como é penoso alimentar os blogues. Não se trata de dificuldade de escrever, isso vai-se fazendo. O que pesa é o dever de manter a ligação com os fieis. Tudo isso torna o bloguista numa espécie de monge medieval, sempre a murmurar nulla die sine linea. Lá se encontram saídas, mas na obrigação de escrever um mail por dia, acaba-se por os ir escrevendo com a culpabilidade com que o antigo caixeiro viajante enviava telegramas para casa, entre vendas, e vai-se encurtando os textos, como o menino da escola que faz redacções a toda a hora.

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